23 Outubro 2009

outros papéis





talvez no papel haja mais

que o compromisso abstrato

de capturar a lua

para mais um projeto

imobiliário infalível


talvez no papel esteja

algo mais que as sagradas escrituras

das posses terrenas que ela tem

para me fazer ainda mais escravo

que o desejável


talvez no papel

a gente encontre um tom acima

do alívio imediato

de nova solução mágica

para a solidão (tão necessária

afinal) destes finais de tempo

em prorrogação


talvez no papel escreva

além das besteiras bastantes

aos seus ouvidos ansiosos

por beijos quaisquer e

apaixonados apenas


talvez no papel seja possível

saber-se suficiente

ao que reclama o compromisso humano

de estar sempre à frente

da pena

07 Outubro 2009

Absoluto amanhã


Por las calles del abasto, caminhava. Não era a primeira vez e tampouco - tinha certeza - seria a última. No entanto, naquele dia havia resolvido que alguma coisa seria diferente. Seria única, a noite. E por isso apenas entrou no metrô, subte linea B, sem ao menos ter ideia sobre qual estação descer. Foi quando lembrou del abasto, um antigo mercado de hortifruti abandonado, num local que já havia sido a periferia de Buenos Aires, mas que então estava há menos de 20 minutos do centro da cidade, seguindo a Corrientes. Pensava em Sumo, en la rubia tarada. E resolveu descer.


Pra quem nunca teve este tipo de crise existencial talvez fosse necessário explicar que el abasto (ainda em minúscula, mesmo) seria para um jovem baiano há 40 anos atrás como o sonho de transformar a antiga estação rodoviária das Sete Portas num grande e divertido centro de cultura. Mas então vieram as ditaduras, os militares de lá de cá... y las calles con arboles se quedaran con dolor, pero en silencio.


Mas isso passou e então suas preocupações eram outras. Pensava em negro Sumo y la rubia tarada e acreditou que a noite lhe reservava alguma aventura. Enquanto caminhava pelas ruas quase desertas, castigadas por um inverno inexplicável ao seu temperamento baiano, tentava afastar outros tipos de comparações. Afinal, apesar dos argentinos insistirem em invadir o Porto da Barra todos os verões, não seria pelas diferenças de sotaque e de câmbio que ele voltaria para casa naquela noite (e naquele frio!) assim sozinho.


Pensava nisso quando ela pintou. Naquele café terminal que em alguma coisa lembrava a Barroquinha. Esperava um ônibus pro centro e tomava um cafezinho ou vice-versa, mas estava lá. Era alguém vagamente conhecido e orlava a noite o bastante a um encontro casual, cheio de intenções. O suficiente para dispensar traduções possíveis.

- Oi, como vai?

- Ola, que tal?


Ela disse de tantas coisas e ele queria falar de outras mais. Frio, carinho e disposição para ser além do horário perdido ao trabalho. Descobriram que pouco longe, ainda mesmo por cerca da Avenida Corrientes havia um pequeno hotel familiar onde algum sorriso binacional arrumava lençóis de linho, entre frio e carinho, para que brindar ao casual entre café e conhaque fosse apenas uma parte de todo amor que se pudese fazer, dia inteiro depois, enquanto o tempo se perdia em matemáticas outras.


Depois desta noite, toda poesia falaria de encontros e adeus. Ele até desejou que fosse diferente. Mas por pura e absoluta abstração de lugar, fez-se penumbra do mesmo medo de além-mar que antes seu pai lhe havia herdado, antes de fazer de Brasil sua vida. Um quiosco em Córdoba lhe era lua de igual sensatez: pele disposta a qualquer resposta simples ao olhar, pura, pura e absoluta abstração de amar.


Una niña de pelos rubios pasa en la avenida con avidez de pernas, que conduz seus lábios (língua urbana feroz) a tantos corpos absolutos. E, portanto, nada mais seria igualmente puro, nenhum aceno perdido no correr profano do seu destino sem donos.

- Como é possível sentir-se só, assim?

- Há tanto em que se perder, há tanto em que sentir-se só...

- Por que então não ser como todos os vagabundos dos jornais de ontem nas praças de hoje?


Ela sorriu, então. Naquele hotel, ergueu um brinde discreto à distância. Aos militares e sua paixão pela morte, aos mortos que cavam sepultura por dignidades abstratas, ao amor vulgar nas sombras de mercúrio de uma estação de metrô, ao último trago da noite nos bordéis do bairro chinês, aos cartões postais do Rio de la Plata, ao amor esquecido e puro de uma noite absoluta que lhe fez Argentina. Ela sorriu e confessou que passaria. Talvez até se chamasse Evita, mas alcançou seu ouvido com lábios de outras chicas e disse baixinho:

- No bajas a la escuela, porque San Martin te espera...


Ele voltou à calle sozinho como sempre. Tinha no corpo um cheiro do qual dificilmente se livraria (e nem queria). Tinha em mente um blues e sabia que por el abasto outros tantos poemas passariam, antes que certos tipos de fronteiras deixassem de ser absolutos. Pegou outro avião sem pressa, certo de que ainda seria porto o tanto que lhe fez assim tão cheio de amanhã.

05 Outubro 2009

ainda escorpião


assim o seu fogo faminto

de sangue escorpião

escorre ainda entre as veias

e segue reunindo ausências

em um poema somente seu

ainda como lembrança

arde e artesana carinhos

nos limites de cada poro

e venera a mulher amada

(qualquer delas) no jeito seu

de ser fiel e caber-se a tantos corpos

quantos forem os olhares


assim seus olhos vagabundos

porque hoje não é sábado

percorrem abismos devassos

mas não cabem em cada passo

que a gente ensaia em direção a nada

assim porque foi feito

de tal angústia

ainda justifica a certeza

de que a poesia alimenta

esse medo tão seu

esse medo meu

de quem fica assim à luz dos olhos seus

30 Setembro 2009

poemas marcianos

I

larga

imensa a sensação

de estar aqui por um longo

meio torto

sentimento abstrato

de conceitos e conceitos

de arte

(um marciano

em marte

e sua maneira alegre

de mexer com as regras

e assim achar as coisas

coisas todas

como se nunca

fosse dado o contrário)

e enfrentar a folha de papel em branco

com a coragem de ter chegado

até lá

quando o tempo do jogo

ainda não estava

assim

tão definido


II

repentino

como um mergulho sereno

em meu poema absoluto

porque sou e faço e canto

a minha própria alquimia

e ser feliz


III

assim como quem diz

sim à provável agonia

como quem inventa poros

e tantos outros lugares

para ser possível estar só


assim como esse caracol

a criar universos no quintal de uma infância qualquer

(julgar comum a voltar os olhos

para mim...)

25 Setembro 2009

seleção natural

a foto, de Juciara Nogueira, reproduz a obra de Boticelli A Primavera, o que pelo menos já é bastante oportuno


- não, não

o outro ao lado

o barbudo

calado com olhos fundos

aquele com uma palavra

abstrata

e de gosto profundo

colada na língua


- este, profano de absurdo branco

e colarinho passado a limpo

que está apertando os dedos

entre os dentes?


- o próprio

que tem a pele

adolescente de tantas rugas...


- aquele, então

obtuso entre trincheiras

de óculos de aros de tartaruga

e obstáculos engraçados


- o mesmo que não diz nada

quando a faca está no pescoço


- sim

ele que acredita

em abjetos fálicos voadores

e dono de uma loucura

sem cura aparente


- exatamente, o poeta!

que o quero suco e posto na parede

em pregos de mariposas

exposto ao consumo público

e cego aos flashes

de visitações noturnas


- mas

justo ele...


- sim

ele

porque um poema pode até acabar

mas seu reverso

tem sempre um preço

impresso no verso

22 Setembro 2009

Olinda

voltar a ser melancólico e imensidão

ameaço lágrimas

e sempre estou só

em tuas esquinas olindas


ir onde me levam tuas ruas

até não mais distinguir a parte que segue

da que se esquece te amando muito

e tanto a quase a não ser mais dor


olinda ensina o caminho de volta

mostrar o que é estar perdido

e deixa ficar assim

ou simplesmente não haver lugar nenhum

19 Setembro 2009

poema federal

ao norte das palavras

...dizia

e era por certo referência explícita

ao canadá

ou (que será de mim?)

nada além de buenos aires

que chamava chamava

e ainda acesa prestava atenção

à minha mesa

sem tempo pra saber forjar

a coerência daquele gole

amargo amargo de aceitar...


e era quase noite

adivinhava

no trato suave da saudade

o flutuar sonoro dos lábios no ouvido

enquanto garganta abaixo íam

todas as somas de tudo o que pesasse

mais que o ar


era mais agonia

ou era

outro pulsar quase lilaz

apontando os contornos de cada esquina

os traços de cada rima

entre os lábios e tantas desculpas


ao norte

bem ao norte das palavras

era a noite que falava

e não era

nada

- era poesia, ora

e quam mais lhe diria

o contrário?


rodava a cabeça (era

a cerveja) no sentido

quasehorário e tudo

parecia apontar

o canadá

nada de plaza de mayo

de corrientes san telmo o casa rosada

- recuerdo que nada

fuera asi tan fuerto, loco?


alguém já mandou procurar

o norte das palavras

entre as páginas de um livro

de krishnamurti

e no outro dia ele morreu

24 de fevereiro de 1986

...percebi com quanto vinho

se pode fazer um poema (um gole

às luzes lilazes dos nossos outdoors)


tão genuinamente nacional

dizia

pensava em escrever um romance

ora

nada direis, naldo nóbrega

nada farás, caro pato

ou os amores das tantas canções

em denises quanto cratera e de paula

- algum dia talvez

se perguntares por onde andei...


mostre então a diferença

fundamental, mónica

se uma paixão de tantas vezes

é mesmo assim

tão derradeira?

infinitas possibilidades:

sofrer

também ajuda a crescer???

pra que norte

aponta final sua estrela?

alguém fará desta distância

mais curta?

ou o provável será somente

a poesia?


com tantas paixões

(dizia

ao norte das palavras)

que a faça humana

como seria esperado

e não apenas esse enlevo mágico

que o leva a buenos aires

suficiente canadá

ou nunca mais orgasmo o bastante

para fazer sorrir

uma dessas manhãs de sol

18 Setembro 2009

cartão de ponto

uma curva

espaço de tempo difícil

de guardar na memória

mas já é próximo o ponto

e se não houver engarrafamento

talvez não chegue atrasado


uma outra curva

e quem sabe

a vida siga mais adiante

daquela próxima parada

onde você

vai ter que saltar

17 Setembro 2009

Praga

(conversando sobre imortalidade e outros temas controvertidos com Apollinaire)

sobre o amor

disse-me um dia Laquedem

enquanto vencíamos deslumbrados

os labirintos de Hradschin

em Praga

que há instantes que valem

por eternidades

e a eternidade é quando

se aprende a evitar o acúmulo

de instantes como hábito

porque não acreditava ele

judeu errante

que seria o único

a não morrer jamais...

mas aí dobramos outra esquina

21 Agosto 2009

Paz e concórdia via satélite


- Deixaí! deixaí! Num troca de canal, não, que é a Miriam tentando explicar a crise econômica mundial, o que é divertidíssimo, principalmente se você aperta o botãozinho que tira o som e coloca La cumparzita, con la Orchestra Tipica de Edoardo Lucchina pra tocar como fundo musical. Mas a verdade é que quando a gente está se divertindo o tempo passa rápido e logo chega, em informe especial, aquele correspondente internacional afetado e metidabesta para dar sua aula habitual sobre como não saber de coisa alguma e falar de pouco um tudo, bancando o profundo intelectual de matriz e influência eurocêntrica.

E zip e zap, que nem toda balada é rock e todo mundo pega, estica e puxa. Ao tempo em que os bródi passam batucando na lataria do buzú Itapuã-Ribeira, via Bonocô, Joana Angélica, Piedade, Campo Grande, Comércio, Calçada e Caminho de Areia, andandibanda de tanta gente cheia e vencida, nesta tarde ensolarada de verão da bahia, enquanto a câmera dá um close num casal de turistas que se pergunta, estupefato.

- Ma ton rino de quê???

E não me pegue, não me toque, por favor não me provoque, que eu só quero é ver o comercial na tevê paaaaaaaaassar. Pois logo diz o economista insatisfeito que, se dois e dois são quatro, então porque é que a soma dos catetos da hipotenusa não seria igual ao percentual alcançado pela média percápita do PIB em relação à taxa de superávit das exportações na balança comercial?

Em outro canal se discute, já há alguns dias, a grave questão do conflito de gerações. Tipo, lembra do Fernando? Pois saiu lá de uma vilazinha na froneira entre Sergipe e Alagoas pra vir estudar na cidade grande, até coneguir entrar para uma faculdade federal, integrar os círculos intelectuais da sociedade, participar ativamente da vida política da nação e entrar para um partido clandestino de esquerda (tinha este tipo de coisa, naquela época, sim) e combater a ditadura militar, tomando porrada e gás lacrimogêneo da polícia e clamando anistia e respeito aos direitos humanos, para depois desbundar, virar anarquista, roqueiro, maconheiro, exoterista, naturalista macrobiótico, pacifista verde e muito provavelmente veado, para finalmente tornar-se um bem sucedido microempresário yuppie e aparecer no programa Grandes Empregos, Pequenos Quiosques. Tudo isso para, agora, sua filha mais velha, de 12 anos de idade, vir adverti-lo solenemente para não esquecer de fazer a sua doação para a campanha Criança Infância.

Outra pesquisa diz que, de acordo com as últimas pesquisas, essa gente toda é atualmente radical liberal de extremo centro, que nem o Caetano. Mas isso não vem ao caso na hora dos nossos comerciais. Então, fume Lord Byron e leve uma vida de barão, pois a liquidação das casas Abrasantes está pondo fogo na inflação, que não põe a mão no seu rico dinheirinho se você depositar na Caderneta do Baú, um empreendimento com a garantia da Caixa Monetária Intercontinetal e também a certeza de que a sua saúde será tratada com rapidez e eficiência através do plano especial da Golden Toss, que é boa como a maravilha refrescante de nove entre dez artistas das novelas que não abrem mão das suas pastilhas Irk nos mais diversos sabores de menta com abacate artificialmente colorido.

E nem adianta tentar ir ao banheiro, conforme também advertem as pesquisas, vez que o Paulinho tá lá dentro há duas horas, trancado com a luz apagada, ouvindo Ravel no volume máximo. Você chama o corpo de bombeiros para arrombar a porta e o encontra lá dentro, espalhado entre os ladrilhos com cara de quem acabou de retornar de uma loooonga viagem.

- Pô, cara, num acende a luz assim de repente, que a gente se ressente disso, assim neste estado de lágrimas tão colíricas.

E pronto, mais um novo grande talento está justo e feito para estourar nas paradas. Mas até lá a gente aconselha mesmo é aquela agência de turismo para que faça uma viagem ao Caribe e tire do cabide a sua roupa mais chique e não esqueça, apressada, as peças de baixo e o frio que faz em lugares altos. Ha que ternerse, también, la oportunidad de conocer Punta del Este, mas se a grana for pouca Aracaju mesmo serve. Enforque a segunda e fique um pouco mais, que a saudade a gente engana, bacana, o importante é que você se divirta! Depois a gente faz uma festa de despedida, quando você estiver pronto para outra partida. Mesmo que passe o último coletivo e todo motivo do mundo aconselhe ficar. Afinal, Paris nos aguarda, la nuit n’espere pas un minute a la plainte. E já não é possível parar, de New York a Maragojipinho é só um pulinho. The time spent fast e o momento é só um sonho sem motivos pra terminar.

Porém, mais uma vez a telinha é dos economistas que constróem escadas de mármore e compram pessoas para passar o dia a limpá-las, para que, à noite, estas mesmas pessoas venham sujar os degraus com seus corpos exaustos. Somente para o plantão do seu Jornal Sensacional mostrar, em mais um furo de reportagem, aquele mesmo desabrigado das chuvas do ano passado a declarar:

- Eu comprei um barraco e aí chegou um barão dizeno que é deeeeele, dotô!!!

19 Agosto 2009

estado

arder simplesmente
algo como ser chama
e não ter estágio
- um poema
e eis-me de volta
com alguma certeza
embora os seus versos
nunca levem
a lugar algum
onde o poeta já não tivesse
estado antes
e jamais devolvam
a esse distante ausente
igual
de onde nunca saiu

17 Agosto 2009

Feitiço

quero o último grito
em sua garganta
quando chegar o momento!
quero outros movimentos
ao que nunca será novamente

quero ser o primeiro
do próprio tempo que faço
a arrancar infinitos dos olhos
com o mesmo alvoroço
de quem inventa universos ao acaso

quero que deixe os seus braços
em volta do meu pescoço
e me ofereça um sorriso sem eira nem beijo
como faria a sereia de um rio
sem o seu sexo de peixe

assim serei o longe do mais remoto
que jamais fora visitado
até que nada mais seja capaz
de afastar assim
o seu corpo dormindo ao meu lado

14 Agosto 2009

poema absoluto

porque estou vivo
porque respiro
o brilho das estrelas
ou ainda porque existo
entre o infinito
e os limites do seu corpo

por isso
me ofereço a morrer
em definitivo
num instante deste orgasmo
(porque assim resisto
ao desejo de ser eterno)

antes do mar
diante do encontro de cada
esquina (meio esquisito)
eu faço encanto do terno
destino
ser menino e serpentina

13 Agosto 2009

perfume

não haveria palavra
igual
tal reflexo
em espelho adivinhado

não seria assim
tão simples
o seu rosto (tocha
de olhares) em sorriso outro

não caberia
tal vulgar jeito de corpo
quando a gente acende
muito mais

não acabaria jamais
face tardia
em abrir portas
pr’um nada tão conhecido

12 Agosto 2009

certas ladeiras

...um poema lembrando a gregório de mattos e guerra


nessa cidade da bahia
ao pé de cada ladeira
habitam ritmos de cheio próprio
como a cor negra da pele de sua gente
sem cor
porque é sempre noite
e sobre os barracos sem portas
sobre o asfalto violado
sobre cada uma
das suas montanhas de lixo
trafegam os ratos
que insistem
destruindo as escadarias
que afinal
não dariam em lugar algum
mesmo

10 Agosto 2009

TEMPO

o meu poema
seria capaz
qualquer dia desses
de ser tão temporal
quanto infinito
se dependesse somente
desse seu
sorriso sem tempo
esse insistente verso
entre o meu desejo
e ser um beijo eterno
assim
entre os seus dentes
ou simplesmente
arder de felicidade
por estar aqui
sem qualquer rima entre
o que foi
e o que sorri agora

28 Julho 2009

O encontro marcado


Planejaram um sequestro bem sucedido, certa vez, mas logo o líder do grupo, Póca Ôio, 16 anos, entendeu de se enrabichar com uma mulher reboculosa do Nordeste de Amaralina, que terminou por convertê-lo à Igreja Reclamante do Evangelho Mais ou Menos Retangular. Dessas que proibem um bocado de coisas, inclusive sequestros.
Depois foi o Caveirinha, 14 anos, que encontrou no aterro de Canabrava, outro dia, um certo livrinho com As receitas de sucesso dos regimes garantidos pelos astros de Hollywood. De tão encantado que ficou, passou a seguir as receitas à risca e, em menos de um mês havia desaparecido completamente, de tão magro.
Zé Farofa, 17 e meio, portanto quase demaior e praticamente banguelo, dançou por conta de um avião malfeito entre o Porto da Barra e o estacionamento de São Raimundo, lá mesmo, bem ao lado dos homi... Na hora da sujeira, neguinho queria que ele mastigasse a coisa, só de sacanagem. Engoliu inteiro. Resultado: só seis meses de Fameb e uma tremenda dor de barriga. Depois, pau! como é dos costumes.
Então, sobrava o Vintidois, 10 anos de praia e jacaré na areia preta da Preguiça. Mas ele também cansou de lavar carro no estacionamento do Unhão e inventou de pegar onda debaixo do viaduto da Contorno. Dia de ressaca, morreu afogado e devolvido às pedras, quase comida de polvo.
Foi quando aceitou o trabalho de boy numa companhia de seguros, ganhando quase um mínimo. Como o escritório ficava muito longe de casa, dava um jeito de dormir por lá mesmo, sem ninguém perceber. Foi assim quase um mês e quando enfim passou no barraco pra trocar de roupa sua mãe já quase nem lembrava mais dele.
Na verdade, nem ele recordava mais o próprio nome. Era boy pra lá, boy pra cá, que resolveu assumir de vez. Tornou-se Boy, o terror das aeromoças de fogão do Campo Grande. O apelido completo quem inventou foi o auxiliar de escritório gorducho que fumava duas carteiras de cigarro por dia, apenas porque uma vez o encontrou no Cruz Vermelha azarando umas secretárias do lar.
_ Tudo preconceito, meu caro!
Ele gostava da frase, que ouvira o assistente da gerência pronunciar numa reunião onde servia o cafezinho. Apreciava também a hora do almoço, quando todos saíam e deixavam om escritório só pra ele. Comprava na lanchonete da esquina um hamburger com bastante quetichup e enchia um copo de água mineral com Cebion, que saía mais barato que refrigerante. Tinha duas horas para ficar só, comendo, bebendo e olhando as revistas de mulher nua que o auxiliar de escritório gorducho escondia na gaveta. Contanto que não sujasse o carpete do escritório...
Um dia o gerente carrancudo voltou mais cedo do almoço e o encontrou em sua mesa, haburger, Cebion e revistinha de mulgher pelada na mão. Não disse nada, apenas esperou que el limpasse os farelos de pão e saísse da sala, em pânico indisfarçado. No final do expediente, recebeu o recado para ir à sala do chefe. Angustiado, antecipava o sentimento de perda que certamente experimentaria ao ter que voltar para o barraco e os estacionamentos da cidade. Será que ainda seria capaz de distinguir as bocas e pontos mais quentes da cidade naquela temporada?
Mas o gerente carrancudo estava sorrindo quando o convidou a sentar-se à sua frente.
- Você apenas aprecia as fotografias ou gosta de ler os artigos também?
Em pânico novamente, nem sabia o que responder. O chefe então abriu uma gaveta de apanhou um livro, colocando-o à sua frente.
- Sabe ler?
- Um pouco, sim, senhor...
- Pois bem, eu vou lhe emprestar algo um pouco melhor que estas revistas que você anda lendo na hora do almoço.
Pegou o livro e saiu da sala o mais rápido que pôde, mal acreditando que não fôra, afinal, despedido. Nesta noite, achou melhor não abusar da sorte e dormir em casa, mesmo que tivesse que enfrentar três ônibus superlotados. Pois foi justamente num deles, espremido entre todos os exaustos, suados e sem-esperança que voltavam do trabalho, que lembrou de olhar a capa do livro. O encontro marcado, de Fernando Sabino.
As primeiras páginas foram lidas entre os solavancos dos coletivos que levavam à periferia da cidade, aos barracos plenos de fome e antenas de tevê. Preencheram os horários de almoço e chegaram ao fim exatamente um dia depois que o gerente carrancudo da companhia de seguros foi demitido por não conseguir preencher a cota anual de vendas.
E por uma dessas razões que justificam apenas o despecho de crônicas e contos, ele começou a lembrar de Póca Ôio, Caveirinha, Zé Farofa e Vintidois, mergulhando em interpretações que jamais imaginara possíveis. Das apólices às letras foi um pulo. Logo, cada uma das personagens do seu destino improvável tomavam forma em universos sempre mais imponderáveis ainda.
Em alguma crônica, no futuro, ele certamente haveria de lembrar do carrancudo gerente da companhia de seguros, tanto quanto de um certo encontro – ele não tinha ceteza, entretanto – marcado muito tempo antes, entre personagens de uma trama que sequer começara a acontecer. Mesmo que continuasse entre os solavancos de coletivos que levam à periferia da cidade, entre barracos plenos de fome e antenas de tevê.

22 Julho 2009

agora demais

o homem
pode até realmente ser bom
ou mal
não importa
a idéia que ele faz
(ou deveria fazer)
de sua própria humanidade
é que deveria estar acima
de qualquer conceito
repartido entre o antes
e depois
enquanto não fosse agora demais

15 Julho 2009

instantâneo marinho

Sentou outra vez à máquina de escrever. Tinha aos pés descalços, como tapete preguiçoso, o cachorro companheiro. Abrira outra garrafa de vinho, desta vez tinto, chileno e seco, antes de colocar pra tocar novamente o disco do Piazzola. Talvez não pensasse em nada, por isso não conseguia escrever. Mas sabia que do outro lado da janela, apesar da noite sem lua, havia o mar que tanto amava. E assim era feliz.

Alguém lhe havia dito, um dia, que a vida é espiral e flui de acordo com a cor que os seus olhos possam emprestar à luz inevitável, independente de qualquer outra noção de tempo. Por isso, olhou em volta: um velho amor na gaveta, o colarinho sujo, branco na memória de tanto rebuscar armários antigos em busca daquele eterno impecável. E os mesmos, mesmos ternos afagos e solidão.

A adolescência cumprida à força de um trato mal feito com o tempo e o espelho. As palavras servidas em prato feito e igual infância perdida em mal-estar passageiro. Afinal, não era assim tão precoce a esclerose, a ponto de negar os primeiros pelos tão esperados na cara, apenas para ter uma desculpa descarada para ir outra vez ao banheiro e as espelho (naquele canto de ladrilhos há ainda enferrujada a lâmina inútil de barbear).

Mas foram precisos tantos outros achados para que ele voltasse ao ponto de partida, com as mãos abanando. Tonto, tonto e no entanto dono de tantos valetes, o bastante a qualquer segredo que inventasse para si próprio. Pois cresceu assim (denunciaria algum dia aquela lâmina indiscreta), já que foram muitos os beijos roubados - tantos quantos os negados - a desafiarem as suas faces secretas. Enquanto a dor, a dor absoluta e sem dono, seguia invadindo poros, sem permissão.

Ah, quantos versos seriam necessários para aplacar este impossível? A dor prosseguia única, senhora de infinitas noites em claro. Até que ele, agora poeta, resolvesse fazer-se dono do mundo e romper rimas em busca de uma nova poesia! E rasgar praças e esquinas e eleger idiossincrasias aos deuses que ele provavelmente inventou. Ou aos diabos, que o escolheram e carregaram....

Mas apenas isso já não seria o bastante e ele saiu a oferecer-se ao que não era, mera fronteira entre a solidão e todo o pensamento tombado pelo patrimônio intelectual da nação. Ao mesmo tempo em que aquilo que não era, fazia dele (quem diria!) poeta... Talvez pensasse nisso quando dormiu, pés descalços e a companhia do cão preguiçoso. A garrafa de vinho tinto e seca, o vinil do Piazzola ainda em voltas e voltas em torno de uma noite que já escapava, ocidente de si mesma.
A esta altura, dormiria o poeta, pronto a outros sonhos, a sonhos que sequer tentara imaginar, enquanto o poema que não foi escrito desafiava as teclas da máquina de escrever.

Estaria na força imensa dos seus próprios mistérios ou no ritmo louco do seu jeito sem jeito e ao seu peito óbvio bastaria. Seria quase tudo que se imagine juntos e nunca teria o seu segredo imenso de parecer pequeno quando sem fim se saberia. E ainda faria dos seus sonhos um vulgar comum qualquer, já que em nenhum lugar estaria, quando afinal não fosse aqui, agora, ou qualquer outra armadilha fugidia.

08 Julho 2009

contando

a partir de agora, nosso blog passa a ter um contador de acessos...

06 Julho 2009

natural

folhas oscilam ao vento
sem a ajuda de qualquer metáfora
da mesma forma
com que a nossa própria química
trabalha a saudade
o desejo
a poesia
ou um beijo
sem que seja necessária
qualquer outra forma gramatical
que ultrapasse a comunhão
natural
das letras nas letras
que formam o seu nome
em meus lábios
enquanto as folhas
simplesmente
(como a própria vida)
oscilam ao vento

08 Junho 2009

De poeta, anarquista e visita ao dentista

Ele quando fala deixa um gostinho de poesia na boca e traz sempre nos olhos aquele ar de quem vai derrubar a ditadura. Tem um jeitão urbano mas detesta cidade grande.

- Ela é louca! (ele disse) e gente não passa se uma estranha raça que vai se bronzear na praia e recita poesia na praça. A gente faz trapaça na contagem do trocado quando o garçom traz a conta (que sempre aumenta nos fins-de-semana), enquanto a gente não sabe o que fazer para engolir a mesa quando se olha nas sombras do outro e se pergunta: e agora?

Ele não tem boa memória e já depois do quarto copo esquece o verso indeciso e cala. Outras vezes ele fala. Uma fala esquisita, contraditória, anti-autoritária, uma paixão embrionária que deixa na boca da gente um cheiro de pasta de dente, água sanitária e detergente. É alto e nunca se abaixa pra evitar sol na cara. Passa tanta solidão e nunca aprendeu a se aceitar poeta. Sabe que a fome é o preço que paga certas liberdades...

Um dia discutíamos o uso de palavrão na poesia.

- Caralho!!! (disse-me, indignado) por que será que as pessoas ainda não descobriram que o cotonete é um objeto fálico? Vagina e buceta termina dando tudo na mesma. E o barro das nossas porcelanas serve tão bem ao amor quanto à hipocrisia.

A verdade é que o assunto encheu um saco tão profundo que passamos o tempo todo trocando em miúdos a dialética hegeliana e o cosmopolitismo de Gregório de Mattos e Guerra. Mas de vez em quando ele fecha os olhos e condensa assustado uma gota de orvalho.

- O mundo é complicado e a gente não pode ficar patrulhando os sentimentos. O poema é um rebento e o poeta não costuma negar os seus limites.

- Imagine só! os meus primos me chamam de anarquista, mas eu nunca li Marcuse e nunca fui pra cama com a minha tia!!!

Pois foi em meio a tanta elucubração inevitável e alguma consciência vaga do que fazer na quarta-feira de cinzas que lhe surgiu o dilema terminal:

- E aí, obtura, faz canal ou arranca de vez?

A memória, sempre sempre armadilha, andava de óculos escuros ultimamente. E jamais deixava de dar uma passadinha no Porto, hora do crepúsculo, para encontrar Cratera e amigos comuns em inatacável bobeira à beira-mar.

- Ser careta, cara! ora, direis...

- Trabalhar no pólo, ir pro comício do Gilberto Gil, deixar a barriga crescer e criar filhos rechonchudinhos!

- Verdade, é a new caretice plenamente instalada em todo o planeta...

- Só...

Então (e não saiu em nenhuma manchete de jornal), derrubar muros apenas para construir de novo e pintá-los de branco e pichar poemas disformes e esperar o dono pintar de branco outra vez e pichar e derrubar novamente.

- Libertar o poema oprimido e fazer o poema operário transformar o tempo dos muros brancos...

- Rapáááááááááaizzz, gostei...

Jogo alegre que não serve para quase nada, é verdade, mas inventa uma desculpa óbvia para ter o que sonhar na noite seguinte. Ele sabe. Da janela do consultório dentário dava pra ver, boquiaberto, a torre do Convento do Carmo (ou seria a Igreja da Piedade?).

- Ser erudito, prolixo, ortodoxo, o caceteaquatro! é isso o que nos resta...

- Verdade, afinal, quem tem culpa de ter lido Ginsberg antes dos 20 neste país de tão morenos pecados?

Kafka, Sade, Zebral, Pessoa, Poe, Augusto e Bukowisk depois do almoço, nunca antes das três da tarde. Jornal Nacional durante o jantar com arroz integral e salada de chuchu. Depois, fazer mapa astral, lembrar da Mônica e do Eduardo, vender sanduíche natural com patê de latinha na Boca do Rio  e saudades de Béu, arrancando orelhões pelo talo nas madrugadas do Campo Grande, depois dos laboratórios com entrada franca na Escola de Teatro e cachorro-quente vira-lata nas escadarias do TCA. Irema sabe disso. Agora, se dá cárie?

- Sei não, quéquicêacha?

- Eu quero mais é saber se você já descobriu qual a sua possível contribuição para o processo.

- Foquiú para o processo, meu! Arranca!!!

E logo depois, instantâneos como leite Ninho, vieram os shoppings centers, apart-services e amor com camisinha. Ah, prefere uma narrativa linear? Bem como nos filmes do Gláuber naquelas mostras desorganizadas pelo diretório acadêmico? Então lembra da chuva de poesia na Praça Castro Alves, quando ainda não existia o Cheiro de Amor. Lembra do Zanzi, do Boemia, Rei da Vela e do Garagem ainda na garagem. Do Vila Sésamo com a Sônia Braga, todavia virgem.

Mas ele logo desiste da idéia e capitula ante a lição universal de que nada será como antes e talvez ainda haja mesmo muito o que fazer depois de pagar o IPTU. Batman, por exemplo, ainda não se convenceu de que simplesmente não pode acabar de vez com o Coringa, já que depende dele pra vender seu peixe a Hollywood. Perguntem pro Humberto Eco...

- Vai doer muito, doutor?

- Quem sabe, meu filho... Essas coisas são assim mesmo, como o tempo e a Xuxa, a gente nunca sabe quando passa...

Ele costuma perguntar a si próprio  como é que uma coisa assim acontece justamente a alguém como ele, tão cabeçafeita. Mas sai do dentista virtualmente banguela e cheio de anestesia na cabeça, a fim de tomar outra saideira no Mordomia. Mal desconfia que a vida´inda segue para além da Ladeira da Barra.

- E aí, como foi, cara?

- Até que não doeu tanto assim...

Cratera não iria acreditar quando ele chegasse ao Porto com aquele sorriso novo. Mas o que fazer com o tempo perdido entre as páginas amarelas destas revistas de espera entre uma consulta dentária e outra? Era preciso primeiro aprender a cronometrar idiossincrasias como quem sabe que nem só de Paquitas eram feitas aquelas manhãs possíveis. Quem sabe, os oitenta não seriam, afinal, uma década inteira perdida.

03 Junho 2009

De como foi feito o pré-histórico milagre da emoção

com olhares de cobras

e lagartos

perscrutei os momentos dinossauros

que fizeram por breves fios elétricos

alguns séculos das nossas cabeças

tão répteis

 

angra dos reis

chernobyl

mata atlântica e áfrica do sul

estratégicos mísseis europeus

sete quedas e tantas amazônicas

quantos golpes e golfos pérsicos

 

com essa mesma disposição

a gente segue traçando estrofes

assim crocodilas

mesmo que por demais bonitas

fossem

ou plenas ‘inda que tardias

01 Junho 2009

natureza morta

talvez uma chance

enquanto o negro daqueles olhos

permanecer acariciando a pele sem cor

de uma paixão qualquer

 

uma chance

como o amor do louco

de olhos vermelhos

por aquela menina azul

 

talvez uma chance

enquanto os seres de tons diferentes

pintem arco-íris diversos

dos ensaiados pelos donos de pardos ternos

 

uma chance

como gravata borboleta

e colarinhos sujos de batom

em nossas molduras iguais

20 Maio 2009

letra prum rock de sempre


            Aquele vento de final de tarde nos alcançou exatamente quando estávamos prestes a furar com os olhos a parede amarela que nos continha, domingo monótono, com seus pôsteres tortos e sujos de coco de barata. Ele mexeu primeiro com a mecha branca do cabelo de Maíra, que estivera um bom tempo espreguiçando as sobrancelhas sempre alertas.

- Uma piada! Alguém conta uma piada?!?

- Ah, não... Vamos assaltar um banco?

- Que tal fundar um partido político?

- Melhor uma igreja messiânica...

            Alguém até riu, principalmente porque se falava a sério. Outros preferiam seguir melancólicos, esperando passar a crise nas bolsas de valores. Mas afinal era uma festa: amigos reunidos, bebidas e comida à vontade, música vulgar e videoclipes moderninhos. E somente Maíra com algum sinal de vida.

- Vocês sabiam que um ano-luz é a distância que a luz percorre, no vácuo, durante 365 dias, à velocidade aproximada de 300 mil quilômetros por segundo?

            Naquele apartamento, domingo monocórdio, o tempo se distendia e encolhia arbitrário, jamais avisando quando enferrujava ou passava rápido. As palavras mal tomavam forma e se espatifavam nas paredes amarelas e cheias de pôsteres tortos. Antes mesmo de fazer sentido. Uma festa. E sequer os vizinhos reclamariam do barulho.

- Quem topa uma partidinha de buraco?

- Par ou ímpar?

- Ah, não... Que tal formar uma banda de rock alternativo?

            Em determinado momento, chegaram a ligar a tevê e inundar o olhar com reality shows, anúncios de novos empreendimentos imobiliários, crises financeiras internacionais, novelas e minesséries, George W. Bush e radicais muçulmanos. Mas a Maíra tinha apenas 15 anos e avistava o século XXI com outros ângulos na cabeça, não tão retos ou oblíquos, mas plenos de uma geometria muito própria, relativa, soma nem tão precisa de algo que a gente sempre soube o que era mas nunca conseguiu traduzir com todas as letras.

            Levantou, tirou do bolso sua guitarra elétrica com adesivo peace and love, presente do Jimmy, e abriu a janela da sala.

- Olha, cês podem dizer que faz um frio assim, que ontem ele não ligou e hoje é a mesma coisa de sempre.

- Vocês podem supor que não saindo de casa conseguem ao menos esquecer essa mesma coisa de sempre.

- Vocês levantam com vontade de ouvir outra coisa no rádio, mas só conseguem encontrar esta mesma coisa de sempre.

- Vocês até ameaçam comer as unhas do pé e arrancar os cabelos por causa dessa mesma coisa de sempre.

- Mas um dia vocês descobrem que essa mesma coisa de sempre é tão estranha quanto a idéia que se possa fazer dessa mesma coisa de sempre... E

aí já é tarde demais!

            Aquele vento de final de tarde ainda mexia com o cacho branco do cabelo de Maíra, mas poucos de nós conseguiram  perceber. Seguíamos enrolados em nossos próprios abraços e sentíamos frios. Ainda eram reality shows, anúncios de novos empreendimentos imobiliários, crises financeiras internacionais, novelas e minesséries, George W. Bush e radicais muçulmanos.

- E aí, meu? O que é que vem depois?

- Sabe duma coisa? Essa coisaí  toda até que dava uma boa letra de rock...

- O que é que a gente faz agora?

            Maíra sabia que ainda não seria naquele domingo, naquela festa. Sabia que tinha todo o tempo do mundo pela frente e se recusou a discutir a eficácia das medidas econômicas para conter a quebra de Wall Street. Sentou novamente e deixou o vento seguir brincando com a mecha branca dos seus cabelos. No fundo da minha memória, a voz rouca de Bob soprava sem cerimônia.

- The answer, my friend, is blowing in the wind

03 Maio 2009

do crescimento e demais dúvidas paralelas













depois de acesa a última vela
naquela esquina
à esquerda de quem imagina
e quando ela for transposta
a caminho de si própria
ainda depois do seu sorriso pequeno
menina de sonhos
quando for feito um último aceno
e coragem for tudo o que restar
estaremos prontos
para acordar
e finalmente perceber
que as formigas continuam executando
o seu encantamento monótono
que os carros persistem
em seu cortejo inútil
e que o nosso beijo
ainda contém afasia singular
que corresponde à palavra amor
acesa em mil alfabetos
e pronta e surda
a qualquer idioma
... não importa
pois nem assim estaremos a ponto
de acordar

02 Maio 2009

Outro dia em Modernópolis

Mais um dia igual a tantos outros em Modernópolis. Passarinhos cantando em poste, carros engarrafando as avenidas, ondas fazendo espuma entre latas de cerveja na beira da praia e pessoas suando e perdendo a paciência na fila da previdência. Moleques pedindo esmolas aos transeuntes ausentes na praça e novos e muitos outdoors anunciando velhos detergentes em embalagens renovadas. Um dia de final de verão, quente e úmido, escorrendo entre as camisas de poliéster, vagabundas como um elevador cheio de gente parado entre dois andares.
Época de eleições e sorrisos hipócritas nos muros da cidade. Um certo clima de sexta-feira à tarde, quando se empurra os ponteiros do relógio para o final do expediente, mesa de bar e o primeiro trago do fim de semana. Depois de tanto tempo assistindo uniformes verdes e paletós azuis marinho no horário obrigatório da tevê, aquele povo tinha apetite bastante para qualquer tipo de sufrágio. Um atrás do outro. Todo ano. Nos botecos, não se falava em outra coisa: era a festa da representatividade! - Ei, cara, cê vai votar no Partido Liberal Radical de Extremo Centro ou acha melhor o Partido das Renovação dos Assistentes Carismáticos de Domadores de Pulgas Amestradas?
- Êêêêê!!! num enche o saco, ô modernóide alienado!!!
- Ih, já vi que é eleitor do PQP do B...
Em outros ambientes sociais, o momento político era igualmente destaque, logo depois - é evidente - das inenarráveis dúvidas deixadas pela separação litigiosa de Alcione Fagundes de Almeida Carvalho Freneguin d´Alhures Ricamar de Pentecostes Alfama y Alfama Colibri da Ventura e Silva. Enfim...
- Não sei, entende, mil coisas...
- Não é verdade???
- E a pobre da Silvinha, então?
Silvinha Fagundes de Almeida Carvalho Freneguin d´Alhures Ricamar de Pentecostes Alfama y Alfama Colibri da Ventura e Silva (ou simplesmente Sílvia Silva), por sua vez, debruçava-se sobre o aparentemente incontornável dilema a respeito do que fazer antes de ir à praia: votar ou fazer comprinhas no shopping. Decidiu, afinal, pelo shopping, porque assim poderia também assistir àquele filme novo e mui instrutivo, Jogos Fatais parte 75.
Por uma destas casualidades que fazem de Modernópolis este lugar cheio de graça e veneno de um povo moreno e altaneiro, perneava igualmente pelo centro de compras naquele exato momento Violeta, a filha dileta do candidato mais cotado da oposição ultra-liberalista, que vem justamente a ser o inimigo maior da Falange Pós-Urbana Tereza de Oh-Calcutá!, organização radical que inclusive planejara e anunciara o sequestro da mocinha com a intenção de exigir a retirada do seu pai do pleito, uma vez que as relações entre as duas tendências políticas havia chegado a um impasse após as declarações do referido candidato prometendo que, se eleito, retiraria todo o atual subsídio à produção de piercings descartáveis.
Algo assim. A verdade é que, em meio a tantas vitrines de lojas de departamentos climatizadas, tantas mocinhas loiras de escovas progressistas, vestindo jeans apertados e ouvindo new-hip-hop em seus MP99 subcutâneos (descrição exata fornecida para a filha dileta do líder oposicionista), o pessoal da Falange acabou levando a pobre da Silvinha Silva por engano. O episódio logo foi parar na imprensa, que imediatamente conseguiu desvendar e esclarecer os suspeitíssimos envolvimentos da família Ventura e Silva com uma dissidência xiita do grupo ativo de lobby junto ao tráfico internacional de tinta pra urban tatoo. Daí terem pretendido sequestrar a sua filha.
Alguns meses de negociações e os radicais aceitaram devolver a mocinha em troca de que fossem marcadas novas eleições, desta vez com a participação assegurada ao recém-criado Partido Pós-Urbano Tereza de Oh-Calcutá!, organização desarmada mas ainda perigosa, de acordo com o novo slogan publicizado. O governo eleito, por coincidência daquele mesmo líder da oposição cuja filha, Violeta, deveria ter sido a raptada no lugar de Silvinha Silva, concordou, desde que fossem criadas novas representações parlamentares, vez que ele mesmo não abria mão do mandato outorgado democraticamente pelo povo em maioria através do voto popular e etc coisa e tal.
Todo mundo topou, principalmente os eleitores ouvidos em pesquisa de opinião pública patrocinada pelo programa de variedades dominicais mais assistido do continente. Todos estavam acompanhando atentamente as negociações pelo Jornal Transnacional e compreenderam a necessidade de criação de mais um feriado, a fim de que se pudesse exercer livremente o direito ao voto. Claro, os sindicatos organizados impuseram suas condições: que as novas eleições fossem marcadas para um dia útil e com muito sol, porque o trabalhador modernopolitense já estava farto desta insistência em pleitos aos domingos, feriados ou dia de chuva.
Fechado o acordo, Sílvia Silva apareceu nas telas de plasma de toda a cidade, ligeiramente grávida, mas plenamente apaixonada e já pré-candidata às convenções pelo Partido Pós-Urbano Tereza de Oh-Calcutá! Em sua primeira coletiva, declarou:
- Não sei, entende, mil coisas...
Enfim, mais um dia igual a tantos outros em Modernópolis. Este lugar cheio de graça e veneno de um povo moreno, ordeiro e progressivo. Outro dia de eleição, quente e úmido como um elevador cheio de gente parado entre dois andares.

29 Abril 2009

aceno

sempre disposto a criar
hiatos na pele
aponta
a confluência dos lábios
e desce
serenamente
(apesar da força
da gravidade)
rasgando ao meio
esse olhar de pernas
um tanto ácido
que costuma devorar
carnes
em brando cio
e silenciosamente
faz com que não percebam
aqueles que zelam
pelo que é
quando está inteiro
... o resto
é tão negro quanto
um outro olhar
que a acompanha até a porta
e a deixa sair
como se ainda fosse
a mesma

21 Abril 2009

Questão de tempo


Carolina também. Ela percebeu, principalmente quando aqueles cachos da frente - os que sempre escorregavam insidiosos entre os olhos cheios de segredos - começaram a dar voltas e voltas mal penteadas. Não bastasse isso, deixou de elogiar as suas feijoadas aos sábados e nem mais assistia ao programa do Silvio Santos com ela. Sabia, em breve partiria também.
O Gustavo nem telefonava mais. Há uns seis meses, doze dias e cinco horas! Tava lá, na cadernetinha azul, tudo anotado. Dona Miúda era assim mesmo, meticulosa, perfecionista como qualquer virginiana que se preze. Era só duvidar e ela logo mostrava as suas anotações, dia por dia, momento por momento, cada um dos passos dados pelos seus quatro preciosos filhotes.
O Gustavo nem telefonava mais, embora soubesse, com certeza, que era por causa da vida atribulada que tem um médico. Na verdade, o primeiro doutor com diploma de toda a família, do qual ela se orgulhava demais para se preocupar com simples telefonemas. Certamente, no próximo dia das mães... Agora, o Henrique e o Mário (bancário um e escriturário o outro) até que poderiam visitá-la mais amiúde.
- Você não acha que é até um pouquinho de ingratidão, Angélica?
E Angélica, a vizinha magricela e de olhar disperso, apenas concordava com a cabeça, enquanto prestava atenção ao ponto do bolo. Ela nem gostava muito de dona Miúda, que achava viúva demais pro seu gosto, mas à falta de ter o que fazer e com a vantagem de manter sempre uma desculpa razoável para usar a batedeira elétrica de vez em quando, aturava as suas reminiscências e lamentações inesgotáveis. Dona Miúda sabia disso, como soube também de que fora a Angélica quem primeiro levara o seu caçula, o Mário, para a cama, tempos atrás. Mas fazia que não ligava. E olha que ela era uns dez anos mais velha que o garoto! E nem tão angélica assim...
- Mas os meninos são assim mesmo, só pensam em se divertir, não é mesmo?
E agora a Carolina. Outro dia ligou um desses rapazes de shopping e perguntou pela Quérol... Dona Miúda, é claro, disse que ali não morava nenhuma Quérol. Foi quando Carolina puxou o fone de sua mão e disse que era para ela a ligação. Sua própria filha, a Carolina! E ela sequer desconfiava que era também uma Quérol. Quinze anos... depois ainda pediu a chave da porta! Neste dia, voltou pra casa mais ou menos às 2h16min45seg... Por aí, tentando não fazer muito barulho porque era a primeira vez, mas sem conseguir esconder a satisfação tropeçada na borda da cama sequer desfeita.
O Gustavo nem telefonava mais e dona Miúda já não conseguia lembrar quando foi que o falecido conseguira chegar tão sorrateiro a ponto de não acordá-la. Ela, de sono tão leve.
- Os meninos são assim mesmo, não é?
Nesta noite ela também não conseguiu dormir. Abriu a gaveta do criado-mudo e apanhou, sobre a caderneta azul, o vidrinho cheio de comprimidos redondos coloridos, aqueles que o próprio Gustavo recomendou, mas disse que era para ter cuidado, pois eram muito fortes. Era só pra chamar a atenção, nunca teve mesmo coragem de tomá-los. Lembrou de uma novela onde uma viúva amargurada engolia um frasco inteirinho desses comprimidos coloridos e era salva, no último momento, pelo filho médico que arrombava a porta do quarto. Mas o Gustavo nem telefonava mais. O Henrique e o Mário a visitavam muito pouco. E agora a Carolina. Esta, certamente já estaria dormindo agora e amanhã chegaria outra vez atrasada ao colégio.
- Ainda acordada, mamãe?
Mal teve tempo para esconder o vidrinho de comprimidos coloridos e Carolina acrescentava um sorriso largo à porta entreaberta do quarto. Estava contente e não fez questão de esconder que era por causa de um namorado novo. Dona Miúda sabia, mas fez ar de surpresa só para não desmanchar aquele brilho nos olhos, entre os cachos da frente dando voltas e voltas mal penteadas.
- Então, chegou a hora...
- Hora de quê, mamãe?
- Hora de dormir, minha filha, que já é bem tarde! Vamos, boa noite.
Carolina fechou a porta do quarto e ela voltou a apanhar o vidro de comprimidos redondos. Encheu um copo com água, deixou cair todas as bolinhas coloridas sobre a palma da mão e ficou olhando pra elas, com uma serenidade surpreendente. Mas Carolina estava outra vez à porta do quarto.
- Ah, mainha, quase me esquecia! O meu... namorado... vem conhecer você amanhã. Dava pra fazer uma daquelas feijoadas especiais pra gente?
Claro que dava. Colocou novamente os comprimidos no vidrinho e guardou na gaveta, sobre a caderneta azul. Bebeu tranquila a água do copo e decidiu dormir, afinal amanhã precisaria acordar muito cedo para começar a preparar uma daquelas feijoadas que só ela sabia fazer.

17 Abril 2009

poema branco

estar próximo
do teu coração verdadeiro
(teus vestidos brancos
os desejos secretos que se alinham
tão justos
em suas pernas de seda)
é a única cor do desejo
que eu sei explicar
enquanto vou guardando
noites em branco
apenas para ser lírico
e poder escrever um poema
num dia azul
num banco de praça qualquer

15 Abril 2009

Para chorar também

Certo de que era feito de aço, rápido abriu os braços ao sol e ensaiou o primeiro salto. Um arremesso fantástico do alto do Elevador Lacerda até a Baía de Todos os Santos, até os braços de Iemanjá, de onde nunca deveria ter saído. Tanto perdido que estava, marido de outras idéias, descobrira distraído, certo dia, o quanto lhe valeria uma loucura assim. Estava certo de que era feito de aço e estava errado. Mas foi de braços abertos ao sol, de olhos afogados no mar, que a primeira câmara de televisão o flagrou. E começava a juntar gente.

- Mundo besta!

Era o Altamirando, praguejando diante do despertador histérico que todo dia o acordava àquela mesma hora da tarde, garçom que era, para escovar os dentes (achando sempre idiota o seu rosto no espelho feio, daquele jeito) e almoçar rapidinho e correr de novo pra labuta, feito um autêntico filho de uma mula. Os ônibus cheios, transeuntes suados, cidadãos apressados e mal encarados, bestas e bestas que nem ele. Essa gente feita para todo o alfabeto, esses netos do gueto, herdeiros de alguma sarjeta, cretinos perfeitos, otários. Ele, que sonhara ser sargento (ou então bancário) e que agora gastava quase todo o seu salário com um secreto namorado, sujeito nojento e, naturalmente, um salafrário.

- Informa o plantão do seu jornal da tarde: mais um desequilibrado exibicionista conseguiu chegar ao alto do Elevador Lacerda e agora atrapalha o trânsito, ameaçando jogar-se de lá, enquanto as equipes do Corpo de Bombeiros e da polícia tentam convencê-lo a desistir da idéia.

Deu uma olhada rápida para a tevê. Já estava bastante atrasado e achava que isso de suicídio no elevador já tinha virado rotina ultimamente. Mas então reconheceu a pessoa que aparecia no centro da tela. Era ele! Altamirando nunca acreditara muito em suas insistentes ameaças de suicídio e, por isso, jamais saberia se o que sentiu naquele momento foi remorso, sentimento de culpa ou apenas o medo egoísta de que a sua história secreta fosse revelada. Pela primeira vez em quase 20 anos faltou ao trabalho. E continuava juntando gente.

- É muito simples. Basta você juntar, num copo com água, uma pitada de sal, uma colherzinha de açúcar e pronto! Lembre-se, o soro caseiro pode salvar a vida do seu filho...

Maria das Graças estava pensando em como é que as pessoas descobriam essas coisas quando a patroa abriu a porta do apartamento toda esbaforida e cheia de compras do supermercado. Correu para ajudar, mas esqueceu de desligar a televisão, o que (tinha certeza) lhe varia depois uma baita reclamação. Não tinha terminado o serviço todo, é verdade, mas que diabo também não lhe avisaria que justo naquele dia não ia ter fila no hiper?

- Maria, eu já não lhe falei que num é pra você ligar a televisão quando eu saio e ficar assistindo a sessão da tarde na hora do serviço? Será que você num sabe respeitar a minha ausência? Tem que ser levada na coleira curta, mesmo, essa gentinha... A gente num deve dar muita ousadia, não...

- Mas, patroa, é que...

- Peraí, peraí... deixa eu ouvir isso aí!

- ...enquanto as equipes do Corpo de Bombeiros e da polícia tentam convencê-lo a desistir da idéia. Até o momento, não foi possível identificar o provável suicida, que não revelou o motivo que o levou a esta atitude extrema. Nossas câmaras continuarão a...

Supondo-se salva pelo boletim extraordinário, Maria começou a escapulir em direção à cozinha, mas não resistiu a uma última olhadela na tevê. Então reconheceu a pessoa no centro da tela. Era ele! Sabia-o cafajeste de marca maior, péssimo marido, mau pai, homem com o qual jamais se poderia contar para qualquer coisa que prestasse. Mas, afinal, o único que conhecera em toda a sua vida sem graça. Pela primeira vez desde que se conhecia como gente, Maria das Graças disse um desaforo à patroa e largou um serviço pela metade. E juntava mais gente.

E ele via cada vez mais gente lá embaixo, pequenininha feito formiga, certo que estava de que era feito de aço. Rápido, abriu os braços ao sol e completou o último salto até os braços de Iemanjá, de onde nunca deveria ter saído. Não, ele não viu as lágrimas desesperadas nos olhos de Altamirando. Ele não viu as lágrimas nos olhos de Maria da Graças. Marido de outras idéias, tornava-se lembrança, enquanto ainda sem entender por que, espremidos no meio da multidão, algum Altamirando apenas permitia que uma Maria das Graças qualquer encostasse o rosto contra o seu peito para chorar também.

14 Abril 2009

poema pensando nela

quase uma pérola

(era ela
enrolada em luzes
de seda)

a importância da equação
de tempespaço
ou apenas um certo estar
no jeito
de ser palco

(era um teatro feito
e eu cheio de amor
e saudade)

ao
mesmo
tempo

em que a aritmética
de um poema
apontava
e prescindia (ou pressentia?) a fama

... aplausos

mas as cortinas
fecham
apesar de uma lágrima
minha
no escuro

12 Abril 2009

outros ventos


um vento mexe em

meu cabelo

e eu meio

que deixo pra lá

deixo pra cá

e vou cuidar

de outros emaranhados


10 Abril 2009

Décimo andar


Aquele doutor, ao seu lado no elevador, tinha a ponta de um eletrocardiograma saindo do bolso do paletó. Esperava. Ele esperava o andar.
- Primeiro... Segundo... Terceiro...
Ela não olhava o relógio, mas perguntava a si mesma: Será que as coisas, aqui no coração do mundo...
- Quarto... Quinto... Sexto...
...Vão finalmente parar, de uma vez por todas?
- Sétimo... Oitavo... Nono...
E se for, quando será?
- Décimo andar, diretoria.
Ela saiu do elevador e procurou no bolso o papelzinho com o número da sala. Não foi muito difícil de encontrar, ocupava quase metade do andar inteiro. Na única porta aberta, diante de um enorme sofá cheio de gente esperando estava a secretária, inevitável.
- Eu... Eu queria falar com o doutor Cristóvão.
- Você tem hora marcada, minha filha?
Enfiou o papelzinho com o número da sala novamente no bolso e suspirou resignada. Quase girava sobre os saltos altos e saia rápida e elegantemente quando ouviu um daqueles murros na mesa dos quais dificilmente se esquece. Era o próprio, o doutor Cristóvão, profundamente irritado.
- Burocrático??? Eu???
A secretária deixou cair os ombros, levantou e seguiu com profissional resignação para a porta onde estava escrito diretor-presidente-executivo, ao tempo em que o interfone tocava e tocava e tocava impaciente.
- Chamou, doutor Cristóvão?
Lá dentro, após quase ser atropelada pelo homem de paletó de corte duvidoso que saia apressado equilibrando várias pastas debaixo do braço, a secretária encontrou o doutor Cristóvão escarafunchando uma pilha enorme de papéis sobre a mesa.
- A-hááááá!!! Sim, chamei, sim. Chamei, sim! Imagine a senhora que este yupiezinho de merda teve o topete de me chamar (a mim, o doutor Cristóvão) de burocrático!!! Imagine...
- Calma, doutor Cristóvão, o senhor não quer um pouco de água com açúcar?
- Água com açúcar??? A senhora deve estar brincando... Cadê a pasta com o currículo da nossa nova relações-públicas?
A secretária deu meia-volta e foi buscar a pasta. A moça que permanecia parada à frente da mesinha da secretária viu aí sua grande oportunidade e partiu direto para a sala do diretor-presidente-executivo. Que logo a percebeu.
- E a senhora, quem é?
- Eu... Eu sou...
- Ah, já sei, já sei! Vem cá, senta aqui um pouquinho.
Ela obedeceu. O doutor Cristóvão deu outras ordens à secretária e a dispensou rapidamente. Ela ficou sentada na poltrona bem em frente à mesa do doutor Cristóvão.
- Muito bem, minha filha. Eu já analisei cuidadosamente o seu currículo e creio que concordamos, de início, quanto às suas pretensões salariais. Agora, aproveitando que a senhora chegou num momento dos mais oportunos, vamos ao trabalho, não é mesmo? (Virando-se para o interfone) Não atendo ninguém nas próximas duas horas, entendido?
Duas horas se passaram e ela somente conseguia balançar a cabeça ora positivamente ora negativamente, enquanto o doutor Cristóvão falava e falava e falava. Estava profundamente preocupado com a imagem de sua empresa, acusada de ser excessivamente centralizadora e pouco ágil em suas decisões. Ele queria mudar isso e, para tanto, resolvera contratar uma relações-públicas. Mostrara gráficos, manuais de organização e métodos, planilhas e balancetes.
Por fim, suspirou satisfeito e espalmou a mão cheia de anéis sobre a mesa cheia de papéis.
- E então, o que é que a senhora acha?
Ela olhou para a mão cheia de anéis sobre a mesa cheia de papéis e depois para o rosto redondo e cheio de preocupações à sua frente.
- Sabe o que eu acho de verdade, doutor Cristovão?...
- Doutor Cristóvão, minha filha, com ó e ão no final!
- Doutor Cristóvão, o senhor é muito burocrático.
- Burocrático??? Eu???
Ela deixou cair os ombros, levantou e seguiu com profissional resignação para a porta onde estava escrito diretor-presidente-executivo, ao tempo em que ecoava outro daqueles murros na mesa dos quais dificilmente se esquece. Queria apenas ir embora e sequer se sentia disposta a explicar que não era a relações-públicas que ele esperava, mas que fora ali apenas para oferecer um novo pleno de seguro de vida.
- Descendo...

06 Abril 2009

O Encontro

A solidão é uma questão de copos, mas cada mesa se faz em torno de noites diversas. Imaginava o poeta, enquanto o garçom servia em cerveja os seus próximos 15 minutos. Lembrou da mesa ao lado, agora vazia. Eles se foram há algum tempo, o rapaz desconfiado e a moça sorridente. Deixaram sozinhos a mesa e os copos à indolência do garçom. Seu copo cheio e a certeza de não ter onde ir o fizeram pensar: será que acaba aqui toda essa aventura que a gente chama poesia?
Ele havia falado o tempo todo de lirismo, essa tal metafísica suburbana que anda rondando nossas almas ocidentais, que assombra os nossos telhados conjugados, que desconta nossas folhas de pagamento e ainda desponta em todo novo lançamento imobiliário.
Ela havia falado de cada buraco de parede ladrilhada, cada barraco da cidade, cada pedaço arrancado de um dente cariado. E ainda lembrava dessa coisa que nos acorda todo dia em nome de uma nova ordem social, da certeza de ganhar sozinho na loteria, de traçar a secretária do chefe e pagar a última prestação do carro novo e ainda jantar num restaurante chinês.
Ela havia falado de tantas coisas e ele ali, no outro canto da mesa, o tempo todo preocupado apenas em garantir a perpetuação da espécie.
- Que espécie de homem é você, afinal?
- Ora, ora, meu bem, quando é mesmo que sai o último vôo para Miami?
Outra cerveja e mais 15 minutos. O planeta permaneceria claudicando em torno de si mesmo, pois amanhã outro avião deveria cair e os ministros da fazenda de todo o mundo ocidental estariam empenhados em anunciar mais um pacote de medidas de salvaguarda para o mercado financeiro internacional. A terra voltaria a tremer no Piauí e o mar brincaria outra vez nas pernas de alguma menina amaralina, enquanto pelo rádio Paulinha seguiria repetindo a promessa de que depois de você os outros são os outros e só.
A moça irritada da mesa do canto olhava o relógio pela 48ª vez quando o rapaz atrasado chegou. Nem esperou que ele sentasse e já o fuzilava com olhares de cobras e lagartos. O rapaz alcançou sua mão, delicado.
- Você certamente estava preocupada com algum atraso entre os nossos compromissos...
- Sacanagem, cara!
- Eu até sei... Mas o tempo, menina (e não conte isso a ninguém), o tempo não passa de um piscar de olhos quando você sorri pra mim!
Ela sorriu. E o poeta finalmente começou a entender o que Sérgio queria dizer com aquele papo de vigia do tempo. Mas era outra cerveja e ele terminou aterrissando o olhar na mesa da outra menina sozinha há algum tempo. Não pensou muito a respeito, porque assim não teria feito. Quando percebeu, já estava sentado à sua frente.
- Olha, cara, eu bem sei o quanto é difícil prum homem aceitar o fato de que uma mulher queira ficar bebendo sozinha num bar, afinal vocês foram criados dessa maneira, mas eu vou lhe garantir uma coisa: esse é o meu caso! Por isso, vê se não me enche o saco e dá o fora, tá?
Não deu uma única palavra. Ficou o tempo todo calado, olhando os olhos bonitos e, àquela altura, entre curiosos e assustados da menina sozinha. Ela, decidida a ignorá-lo, havia puxado um pouco a cadeira e virado pro outro lado. O poeta então falou num tom de voz tão calmo e firme que chegou a surpreender a si próprio.
- Eu imaginei que você não me reconheceria no início.
Ela se voltou devagar, precavida. Perscrutava em seus olhos mansos qualquer detalhe que denunciasse farsa.
Ele tinha no falar uma espécie de certeza que chegava a assustar. Sequer lembrava mais os argumentos que havia ensaiado para situações assim. Tinha tão claras naquele momento as sensações de que o encontro havia finalmente chegado. Tanto que teve tempo apenas para convencer-se razoavelmente de que ainda era dono do seu destino, senhor de suas ações. Mas teve medo.
- Desculpe o incômodo, eu me enganei...
Já se levantava quando ela lhe segurou a mão, tão confusa quanto ele. Sua voz tinha quase a mesma cumplicidade, mas talvez por não esperar, realmente, que um dia acontecesse, vacilava.
- Espero... Você... Eu conheço você, não conheço?
- Não, é tudo um engano, você não me conhece.
Saiu do bar o mais rápido que pôde, pois apesar de saber-se ainda o centro do universo, temia o que não conseguia entender. Atravessou sorrindo os telhados das casa, dos prédios. Riscava ares de outros traçados enquanto se equilibrava entre os olhares da morena na janela. Acendeu um cigarro na ladeira (e sorria), enquanto passavam as horas da cidade, como se nada tivesse acontecido.
Suas sombras cavaram esquinas nos ladrilhos da favela e fez dela uma nova alquimia: da noite inesperada nascia uma manhã sem metáforas, somente pro poeta poder acordar. A solidão é uma questão de copos, mas casa uma se faz em torno de noites diversas. Imaginava o poeta, enquanto a rua amanhecia esquinas indiferentes a qualquer outra espécie de aritmética.

02 Abril 2009

cartão de visitas


30 Março 2009

Um canto para Anatana

18h30min: As contrações estão cada vez mais fortes. Alertada desde o início da tarde pela própria Carolina, a vizinha procura manter a calma e pede à outra voz ao telefone que descubra com urgência o paradeiro do engenheiro Carlos, em regime de plantão aquela noite, a fim de avisá-lo que havia chegado a hora. Carolina ainda consegue suportar as dores.

32 parsecs: Em contagem regressiva, a operadora de plasmovídeo começa a ficar apreensiva e volta a olhar o indicador de tempo. No extremo oposto da sala, Solrac ouve as últimas recomendações do professor Anilorac, visivelmente preocupado.
- Escute, Solrac, estamos quase na hora. Preciso adverti-lo novamente que este é um procedimento que envolve muito risco e, portanto, não haverá qualquer espécie de censura caso você queira desistir.
- Não, professor. Sei que é perigoso, mas ainda estou disposto a correr os riscos. Não pretendo voltar atrás.

20h32min: As contrações estão mais intensas agora. Como havia sido planejado, o médico da família fora alertado e provavelmente já teria chegado não fosse um engarrafamento no centro da cidade. Às voltas com um problema inesperado nas caldeiras da fábrica, Carlos recebe a notícia mas sabe que não poderá deixar o local naquele momento. Começa uma prece silenciosa, mal conseguindo concentrar-se no trabalho.

19 parsecs: O professor Anilorac caminha nervosamente entre o controle do nível de plasmoemissão e o compartimento onde Solrac aguardava. Seu cérebro trabalha com a velocidade dos mais eficientes computadores, avaliando constantemente os principais desdobramentos de cada componente das variantes possíveis. Ele espera...

21h15min: A vizinha acabou de aprontar um chá de camomila e o entrega a Carolina, na cama. Ela parece bastante apreensiva.
- Carol, não vai dar tempo...
- Calma, querida, acalme-se que vai dar tudo certo, você vai ver...

15 parsecs: O professor dá mais uma volta na sala e pára em frente a Solrac.
- Não sei, os níveis de plasmoemissão estão muito baixos... Vamos interferir o processo!
- Não, professor. Nós havíamos discutido sobre isso e concordamos em não precipitar as coisas. Aguardemos um pouco mais.


21h48min: A vizinha abere a porta e deixa entrar o médico, que se dirige apressado ao quarto de Carolina.
- Vamos começar imadiatamente.
- Não, doutor, eu quero esperar o Carlos chegar. Tínhamos combinado assim.

8 parsecs: Apenas algumas poucas luzes de alerta ainda piscam nos controles e o professor parece mais tranquilo. Em silêncio, Solrac inicia um procedimento de concentração em frente à câmara interdimensional.

22h40min: O médico está apreensivo, suando. Confere o relógio a cada minuto.
- Não há mais tempo, minha filha. Temos que começar os trabalhos agora!
- Não! Eu seguro um pouco mais...

1 parsec: A operadora do plasmovídeo iniciou a contagem final e, já dentro da câmara, Solrac começa a ser envolvido por um brilho tênue, mas que se acentua. O professor corre mais uma vez até ele.
- Não, Solrac, ainda não! As condições ainda não são as perfeitas...
- Relaxe e confie, professor. Vamos conseguir.
- Estamos em um menos nove microparsecs, professor.

23h05min: A vizinha trouxe tudo o que o médico pediu. As dores parecem intensas e Carolina já mal consegue falar. Para ela, o tempo é uma distorção provocada pela dor.
- Minha filha, eu não posso me responsabilizar...

8 microparsecs: Solrac sente algo semelhante a uma leve descarga elétrica na pele enquanto ondas psiônicas vão envolvendo todo o seu corpo. A operadora vai acompanhando em voz baixa uma contagem regressiva.

23h34min: Vertigens. Carolina quase não consegue manter os olhos abertos, vigiando a porta do quarto. Ela lembra seu primeiro encontro com Carlos: ele chegou atrasado.

7 microparsecs: Uma única luz pisca insistente no plasmovídeo e o professor Anilorac pergunta-se sobre a origem daquilo que alguns dos seus iguais costumam chamar de fé.

23h52min: As mãos do médico e da vizinha tentam segurá-la à cama, mas Carolina se debate e agita em ondas cada vez mais regulares.

6 microparsecs: Por mais improvável que pudesse parecer, o professor experimenta uma angústia indescritível, algo nunca sentido tão intensamente antes.

23h57min: De uma maneira que não saberia explicar, Carolina ouve um carro estacionar em frente à casa, embora não consiga entender o que o doutor tenta lhe dizer aos gritos, junto a ela.

5 microparsecs: A luz ameaça apagar-se no console. O professor quase sorri quando começa a perceber o que alimentava a tranquilidade de Solrac.

23h58min: Carolina distingue os passos apressados na escada.

4 microparsecs: As mãos da operadora parecem tremer sobre os controles, mas sua voz é firme prosseguindo a contagem.

23h59min: A porta do quarto se abre. Os olhos de Carolina encontram o olhar assustado de Carlos e lhe dizem que agora está tudo bem.

3 microparsecs: O tempo é uma distorção relativa do espaço, lembra em silêncio o professor.

23h59min48seg: Carolina observa Carlos correr em sua direção, com as mãos estendidas.

2 microparsecs: O corpo de Solrac, envolto em plasma luminoso, começa a desaparecer.

23h59min59seg: O universo é espiral e explode em torno de Carolina.

1 microparsec: O professor aperta a mão da operadora quando descobre um sorriso inédito no rosto de Solrac, antes dele desaparecer completamente entre fragmentos de luz.


00h: Entre fragmentos de luz, Carolina comparte uma emoção nova com Carlos, que tem entre os braços quem haverá de chamar-se Anatana.

28 Março 2009

Ouvir estrelas, ora direis!


Este foi um dos textos publicados na série Ultraleve, depois reunida em livro, cuja capa foi desenhada por Setúbal.
Acendeu o charuto, bebeu outro gole de uísque importado e deixou cair sobre a mesa o olhar que há pouco investigava o universo, do outro lado da janela, entre o pequeno desvio para o vermelho característico da hora do crepúsculo. Não estava, afinal, em expansão? Ele se sabia assim, um tanto prolixo, inatingível, inevitável.

- E então, senhor, estamos já há um bom tempo aguardando uma decisão...

Permitia que escapasse, como fumaça entre os dedos, as metáforas que lhe dariam respostas ao que procurava (e procurava tanto!). Era um erudito, oras, e não poderia simplesmente reconhecer-se perdido, muito pequeno por um instante, enquanto buscava algum remoto parentesco com as estrelas.

- Me dá um tempo, pô!
- Tempo? Mas, excelência, urge que uma decisão seja tomada... Não podemos nos dar ao luxo de protelar tal definição...

Ele também sabia dobrar papéis em dois e em quatro e logo ter um daqueles aviõezinhos que se pode jogar pela janela. Mas imaginava, por outro lado, que toda relatividade deveria ser revisitada, transformada em algo entre quaisquer verdades e o falso de cada sonho idealizado. Como se fosse tudo em vão, como se não tivesse sido derramado tanto suor, para afinal fazer-se do estranho o inominável outro, somente adivinhado, que era obrigado a beber todo dia. Enquanto as palavras eram engolidas a seco e os carinhos enxugados em nome de uma sintaxe um pouco mais aceitável. Era um incompreendido, portanto.

- Cavalheiros, vocês sabem que às vezes não nos é possível oferecer provas consistentes para tantas tentativas de recriação da realidade, não é mesmo?
- Sim, senhor (responderam em coro), mas é preciso tentar!

Tomou outro gole de uísque importado. Perguntava-se com quantas mais destas limitações atrozes teria que contar, ainda, por pura e absoluta fadiga ante tantas dúvidas. Não tinha certeza se deveria deixar que a eterna dualidade das coisas explicasse o resto. Preocupava-se com a história. Certo ou errado, sabia que todos teriam perguntas a apresentar, mas imaginava também que ninguém levantaria indagações idênticas. E a pretensão de conseguir as respostas já era outra coisa completamente diferente.

Olhou de novo a janela e descobriu num repente que nenhum pôr-do-sol é igual a outro, mesmo ali, naquele planalto longe de tudo. A velocidade da luz é sempre a mesma, não importa a posição do observador e sua velocidade ou direção de deslocamento em relação à fonte geradora, lembrou. Acendeu outro charuto, acariciou o vasto bigode.

- Senhor, a nação está esperando...
- Vocês não dão mesmo espaço, hein?

Respirou fundo, mas muito calmamente. Aprendera com o tempo o verdadeiro sentido da espera, o saber ser paciente. Procuraria agora tirar proveito disso. Tomou mais um gole de uísque e deixou-se levar à sua terra natal, aos tempos da juventude, observando o monótono cortejo das ondas sobre a areia da praia e as belas moças que passavam, vencendo as dunas com as pernas ao vento, onde canta o sabiá...
Não, aquela não era a hora e nem ali era o lugar para se tomar uma decisão tão importante. Mas o olhar aflito e as súplicas impacientes dos seus assessores não deixariam outra alternativa.

- Vocês têm certeza de que não querem tomar num um uisquezinho?
- Senhor...
- Está bem, está bem... (suspirou) Onde é que eu assino?

O presidente então colocou a sua assinatura no decreto que permitia a introdução de mais algumas estrelas na bandeira de sua gloriosa nação. E enquanto seus impacientes servidores enfiavam papéis nas pastas e saíam apressadamente a fim de despachá-los de maneira formal e conveniente, ficou a meditar se havia tomado a decisão certa. Afinal, não cabia pecar por precipitação... Mas logo voltou a elucubrar a respeito de outras questões urgentes e quase tão importantes quanto a que havia solucionado há pouco.
A tarde era, então, apenas lembranças e o povo daquela ordeira nação começava a voltar para casa, depois de um longo dia de trabalho, sem saber que novas estrelas aguardavam por ele no noticiário da noite.


27 Março 2009

gente

Ela chegou, escolheu uma mesa, sentou e pediu vodca. Enquanto bebia, na mesa em frente, ele reinventava o silêncio comum a qualquer pessoa perdida entre copos, num bar. O sentido da vida misturado às pedras de gelo. Chovia lá fora, mas isso era uma questão de tempo e ele havia resolvido voltar aos rabiscos no guardanapo de papel.
Gente. O bar quase cheio dessa gente que eu encontro todos os dias nos ônibus. Gente com a mesma carranca de dentes.

Olhou em volta, quase instintivamente. Ela o observava. Ele ensaiou um sorriso, mas ela continuava séria. Observava e tomava sua vodca sem pressa. Bonita, mas nem tanto assim. A prestação atrasada, catapora no filho mais novo, crise financeira internacional, aquela tosse que o cigarro ia piorando e ela observava. Observava em silêncio, sem um sorriso sequer. Apenas observava, fixamente, insistentemente. Quase não piscava os olhos. Melhor rabiscar o guardanapo.

O vento mexe em seus cabelos quando passa uma curva. eu observo e não me importo. É gente. E passa outra chuva.
Ele observava. Uma situação como essa só deixa duas alternativas: ignorar de maneira elegante ou atacar frontalmente, ele pensou. Enquanto decidia, a caneta caiu bem no copo de uísque nacional. Nada elegante, reconheceu, embora tornasse menos plástico o hábito de morder a ponta do bocal. Uma boa oportunidade no serviço público, depois a mulher, os filhos... E agora era apenas uma mania das sextas-feiras à noite, tomar uísque sozinho e ficar rabiscando coisas no guardanapo.

Imagino seus segredos. E um cheiro me invade o corpo, me deixa estranho, me amedronta.
E se lhe mandasse um bilhete? E se fosse à sua mesa de uma vez? Olhando bem, ela era até mais bonita do que achara inicialmente. Ela observava, ainda. E talvez fosse isso o que o incomodava mais.
- Garçom, outro uísque!

O que o Reginaldo faria numa situação daquelas? Não, afastou rapidamente o pensamento, concluindo que precisava era parar de ver tanta novela na televisão. Mas a verdade era que ela seguia observando todos os seus movimentos. A maneira desajeitada com que balançava as pedras de gelo com o dedo indicador dentro do copo que o garçom acabara de colocar à sua frente. O modo ansioso como terminou bebendo o uísque de um só gole. O jeito cambaleante como se dirigiu até a saída do bar.

Na rua, meio molhado, sequer lembrava se havia pago a conta ou cansara de esperar o troco. Saíra sem olhar para ela e estava disposto a esquecê-la na próxima esquina. Não estava bêbado. Bebera um pouco além do normal e era tudo! Portanto, quando olhou para trás e percebeu que ela o estava seguindo, acreditou: ela o estava seguindo. Cogitou a possibilidade de um assalto, algum tipo de golpe, mas logo descartou. Ela era mais magra que ele. E se pretendesse estuprá-lo, a coisa não seria, afinal de contas, tão mal assim...

Detetive particular! Não, a esposa não era tão ciumenta assim. Cobradora! Não, os carnês não estavam tão atrasados. Polícia Federal! SNI! DOPS! Não, não... Bobagem... Isso já saiu de moda faz um tempão e além do mais sua ação mais radical e extremada até hoje foi durante o ginásio, quando ajudou a quebrar uma meia dúzia de carteiras escolares em protesto contra a obrigatoriedade do desfile de Sete de Setembro.

Resolveu manter a calma. Talvez fossem mesmo caminhos semelhantes. Nada de entrar em pânico. Nada de paranóia. Mas então porque foi que ela havia entrado no seu prédio? E o acompanhado até o elevador? Entrado com ele e descido no mesmo andar? E, mais importante ainda, o que é que aquela mulher estava fazendo atrás dele, parada, em frente à porta do apartamento em que ele morava?
- O que é que esta mulher está fazendo atrás de você, parada, em frente à porta do apartamento em que nós moramos?

A pergunta da esposa tinha uma certa dose de razão, considerando as três horas daquela madrugada de sábado.
- É, eu sei... Meu bem, eu não sei... Sabe que eu estava me fazendo esta mesma pergunta?
- Então, quem é você, criatura?
Ambos indagaram uníssonos, entre irritados e estupefatos. Mas ela apenas observava.
- O que é que você quer, mulher?

Eles insistiam, ela observava. Em completo silêncio, apenas observava. Entrou sem cerimônias e instalou-se ao sofá da sala, enquanto o casal discutia a situação.
- Seu porco canalha!!! Não tem vergonha de me chegar em casa às três horas da manhã, completamente bêbado e ainda por cima com uma vagabunda débil mental e muda a tiracolo???
- Não, meu bem... Quer dizer, sim, meu bem... Ah, droga, pára de apertar o meu pescoço que eu vou tentar explicar!

Ele tentou, mas não conseguiu. Foi por isso que, pela primeira em toda a sua vida conjugal, foi expulso de casa. Ele e a sua suposta amante silenciosa e misteriosa.
- Qual é a sua, hein, mulher?

Nada. Ela não dizia uma palavra sequer. Apenas o seguia para onde quer que fosse. E observava. Para quem não tem onde ir, qualquer calçada é lugar. Ao menos até abrir o primeiro bar. Amanheceu e as pessoas começaram a passar apressadas, de um lado para o outro, nas veias abertas da cidade que acabava de acordar.
- Bêbado decadente... Piranha vulgar...

Era a censura matutina, com o pacote de pão quente debaixo do braço. Ela o olhou e, pela primeira vez, sorriu. Ele sorriu também. Levantou e estendeu a mão para ajudá-la a erguer-se. Caminharam de mãos dadas, sem pressa. Parou um coletivo e eles entraram. Alguns iam para o trabalho, sonolentos, outros voltavam para casa, cansados, embriagados. Eles olharam no rosto do cobrador e ele tinha um rosto, depois olharam no rosto de todas as pessoas do ônibus e elas tinham rosto.

Gente. Que eu encontro todos os dias nos ônibus. Sorriem. Conversam. Calam. Eu observo e não me importo. É gente, a mesma carranca de dentes.
Ele procurou algumas notas no bolso do casaco e encontrou um guardanapo de papel rabiscado.
- Duas, por favor.

20 Março 2009

A barata

Perseguia com os olhos o andar confuso de uma barata. Havia fumaça em seu nariz e - não conseguia explicar por que - lembrava Milton. De cada boca, ali, escorria um sopro morno. Ora entre os dentes, ora entre os dedos. Escorria...
- Perseguir uma barata
que ela nos leva
a Minas!

Chovera muito naquele dia e a pele dos edifícios, apesar o néon de sempre, parecia mais crespa, tinha mais rugas. O ar era pesado e cheio de um gás impaciente que saíra dos automóveis enfileirados durante todo o dia. Sentados no calçadão, eles observavam as pessoas que ainda passavam àquela hora da noite.
- Que horas são, bro?
- Putz, meu! O que é que eu tô fazendo aqui?
- Descobrir o barato
da barata
a sua revolta
e talvez ela nos traga
de volta...

Um outro magro se aproximou em silêncio, meio quieto. Trazia debaixo do braço esquerdo um maço pequeno de folhetos mimeografados, que atirou ao chão para sentar-se sobre. Ele cruzou os braços entre as pernas e alcançou a noite com olhos fechados, o pescoço longo jogado para trás.
- E aí, cara?
- Ôrrameu... quer saber?
- Nada também, né?

Suspirou. Abriu lentamente os olhos, algo preguiçoso. Mas tinha um olhar firme, num ponto que somente ele avistava. Falava manso, mas firme.
- A impressão que eu tenho é que as pessoas se sentem agredidas ou pelo menos incomodadas quando eu as ofereço o meu livro nas mesas dos bares. Tudo bem, o direito de ficar sozinho, só ou acompanhado, sem ser incomodado. Mas o que me irrita mesmo é sentir que, quando compram, o fazem como quem dá uma esmola. Raramente viajam na poesia que intermedia a coisa toda. Quem não precisa de grana? Mas e a poesia?
- É... É foda, né?
- Então, um cara me perguntou: meu filho, por que é que você não vende o seu livro numa livraria, como todo poeta normal?
- E aí?
- Aí eu disse pra ele: meu senhor, quantas vezes na vida você já entrou numa livraria pra comprar o livro de um poeta normal?
- É... É foda, né?

Descruzou os braços e trouxe o pescoço para baixo. Perseguia com os olhos o andar confuso de uma barata.
- Há um trato
secreto
nos anéis dos dedos
de uma barata vagabunda
- Putz, meu! O que é que eu tô fazendo aqui?
- Que horas são, hein?
- Um segredo
que ela guarda
em sua existência imunda
- Cara, cê hoje tá mais pra Kafka que pra Ginsberg...
- Três e vinte e seis da madrugada.
- Que horas sai o último ônibus pra Minas?
- Só...

Era um daqueles momentos em que se olha nas sombras do outro e se pergunta: e agora? Era um daqueles momentos em que o silêncio incomoda tanto que se começa a ouvir os murmúrios da noite. Um deles trouxe o homem, o que andava meio bêbado, mas sem vacilar, andar de quem não tinha mais nada a perder.
- E aí, galera? Quem é que tem um trocado pra me arrumar? É que eu não como já faz um tempão, sacumé...

Todos continuavam sentados em círculo, à volta de uma fogueira imaginária. Todos continuavam em silêncio. O bêbado deu uma olhada ao redor e engoliu um pouco de saliva amarga. Resolveu arriscar qualquer coisa, apenas pra ficar perto da fogueira um pouco mais.
- Cês são ripes, é? Desses que vendem pulseira e brinco?
- Não, dos que vendem poesia.
- Ah, poesia...

O poeta levantou num salto, empunhou o maço de folhetos mimeografados e partiu em silêncio, algo quieto, em direção a outro bar. O resto do grupo ficou onde estava. Apesar o frio e todas as leis da física, a fogueira ainda ficaria acesa mais um tempo. E passava outra barata, em seu andar confuso, meio vagabunda, como o segredo que ela guarda em sua existência imunda.

15 Março 2009

Flores zíngaras

Bela zíngara que era, fazia sempre os cabelos voarem em mechas negras entre um ombro e outro quando conversava, sorria ou cravava o olhar bem fundo na gente, quase a ponto de incomodar, de deixar sem jeito. Falava coisas sobre as pessoas que elas sequer haviam ainda tomado coragem de admitir para si próprias e sempre dizia sim quando talvez fosse melhor negar, ou vice-versa, mas nunca pelo contrário.
Assim, aos pouquinhos foi ganhando fama de bruxa, primeiro na rua, depois no bairro e finalmente em toda a cidade. Ela passava e os homens olhavam pro lado e as outras mulheres pro chão, quem sabe com medo de encontrarem alguma coisa que não queriam em seus olhos pretos e afiados como agulhas. Com isso, também os rapazes com idade de casar se afastavam dela, temendo quiçá que ela pudesse subjugá-los, exatamente como eles queriam fazer com outras moças da cidade, suas futuras esposas.
E a zíngara ficou só. Não conseguia trabalho porque os patrões também não queriam uma operária que soubesse de tudo, talvez até mais do que eles, sobre coisas que os homens fazem e até mesmo daquilo que ignoravam. Na dúvida, sempre inventavam uma desculpa para não aceitá-la. E quando a velha avó cigana morreu, ela ficou ainda mais só. E todos aqueles que fingiam não vê-la nas ruas quando a encontravam comentaram que ela não chorou uma única lágrima. Quem sabe até já havia previsto a morte da velha, no mínimo bruxa também. E desde então ninguém jamais voltou a ouvir sua voz, a zíngara parecia uma sombra vagando as ruas da cidade, com os cabelos alcançando a cintura.
Pois foi numa noite de lua que a zíngara sentou-se num banco da pracinha da cidade e ficou ali, quieta, em silêncio, olhando pra dentro de si mesma. No dia seguinte, as pessoas que passavam a encontraram no mesmo lugar, no mesmo banco em que esteve toda a semana e o mês inteiro e até o inverno acabar e começar a primavera. Foi quando algumas pequenas flores de várias cores e perfume forte começaram a nascer em seu corpo, ainda em silêncio no banco da praça.
A princípio, ninguém tinha coragem de se aproximar dela, mas aos poucos as crianças que costumavam brincar na praça foram chegando perto e descobriram que, apesar de muda e já com algumas raízes prendendo seus pés ao chão, a zíngara respirava e parecia ter um sorriso doce e sereno nos lábios vermelhos. E não reclamava quando se lhe tiravam uma flor do cabelo. Assim, mesmo apesar das advertências das mães, os meninos foram enchendo as casas do vilarejo com aquelas flores que nunca perdiam o perfume. E até as mães começaram a gostar do aroma que exalavam.
No dia em que a zíngara já estava completamente coberta por flores e folhas (pois quanto mais se tirava, mais e mais nascia) a cidade era toda perfume. Foi quando os homens da cidade tomaram coragem para verificar o que estava acontecendo e foram perguntar à zíngara que tipo de magia era aquela. Mas ela permaneceu silenciosa por trás das folhas que cobriam seu rosto e os homens tentaram tirá-la do banco em que sentava e não conseguiram. Um lenhador propôs cortar os pés dela com um machado, mas uma das mães que tinha a casa perfumada pelas flores zíngaras não deixou.
A confusão que se formou foi tão grande que não se falava em outra coisa, uns achando que se devia acordar a zíngara, outros querendo logo podar seu tronco e ainda alguns ponderando que era melhor deixá-la onde estava, perfumando o lugar. E como ninguém chegava a um acordo, resolveram pedir a opinião do velho poeta, a pessoa mais sábia de toda a região, que vivia só numa cabana afastada da cidade.
Trouxeram-no até a praça para que examinassem a zíngara e desse seu veredito. Assim que chegou, o ancião aproximou-se da zíngara, sentiu seu perfume, acariciou suas folhas e voltou-se para a multidão com um sorriso divertido no rosto.
- Ora, ora, vão pra casa! Vocês nunca leram Gabriel Garcia Marques?
E voltou para a sua cabana, aconselhando a todos que retomassem suas vidas normais e deixassem a bela zíngara ali mesmo, oferecendo suas flores e perfume àquela pequena localidade de fim de mundo.

09 Março 2009

mais poemas de gaveta

Despedida

foi sempre assim
qualquer verso em contrário
seria apenas mais outro
esforço de rimas
inútil

foi sempre em cima de dúvidas
umas tantas dezenas
de ensaios limitados
o mesmo trato de iras
ao acaso
mero contato suave de peles

- você escreve a esse
amor vulgar
e eu acredito

- você grita besteiras
em cima da mesa
e eu leio um poema
olhando em seus olhos

não!
foi sempre assim
e agora qualquer verso
em contrário
já não falaria
da mesma dúvida

seria outra música
e eu já não estaria aqui
pra ouvir o seu final

poeminha impossível

tanto verso em contrário
e bastava uma lua cheia
um abraço e um jeito
de fazer amor debaixo d’água
e sentir seu beijo de sereia
pra não ser mais nada
além do desejo
além do cheiro de mar
o segredo que seu corpo
esconde na areia
quando amar não for mais
que oferecer razões
pra que outras ondas
façam o seu curso
sobre o que não foi jamais

há falhas na tradução

o grande está dentro do pequeno
o grande
está dentro
do pequeno

- seria apenas mais um verso
de ser
não fosse a força do que pudesse
ser dito entre tanto
entre tanta forma
de ter o que somente o desejo
fosse capaz de pensar

o grande
era tanto um novo
sonho da sessão da tarde
e mesmo não precisasse
de mais papel apenas pra
conhecer mais uma moça bonita

10 Fevereiro 2009

economia brasyleira III (uma prece)

é preciso dividir
melhor
a renda

- escutai a nossa prece!

é preciso
dividir melhor
a renda

- escutai a nossa prece!

é
preciso dividir
melhor a renda

- escutai a nossa prece!


é preciso dividir melhor
a
renda

- escutai a nossa prece!

(depois não digam
que eu não avisei...)

12 Dezembro 2008

Lugares comuns

Ridiculo! Ele jurara que uma coisa assim jamais aconteceria com ele. Nunca! Mas essa história de dar carona pra desconhecidas só podia terminar desse jeito. Papo aqui, chopinho ali, termina num motel e depois tem que chegar em casa às três e meia da madrugada, com os sapatos na mão, se arrastando entre os móveis com as luzes apagadas.
- Amor, por que é que você não vem deitar de uma vez?
- Ah, querida... Cê tá acordada?
- E eu costumo falar enquanto durmo?
- É... eu te acordei?
- Você acha que a esta hora da madrugada isso faz muita importância?
- Chato, né? Mas cê não tá muito zangada, tá?
- O que é que você acha?
- Bem, você acreditaria se eu lhe dissesse que estava bebendo alguma coisa com um amigo?
- E você acreditaria se eu lhe dissesse que tem um homem debaixo da cama?
- Ah, não vamos começar uma discussão, né, amor?
- E quem é que está discutindo?
- Ah, e isso lá é hora pra brincadeira?
- E quem é que está brincado?
- Quer dizer que tem mesmo um cara debaixo da minha cama?
- Não foi o que eu falei?
Abaixou-se num salto e enfiou a cabeça debaixo da cama.
- Ei, o que é que você está fazendo aí debaixo da minha cama?
- Você acreditaria se eu lhe dissesse que estava bebendo alguma coisa com um amigo?
- Amigo??? Que amigo?
- Já olhou dentro do armário?
Correu para o armário.
- Ei, o que é que você está fazendo aí dentro do meu armário?
- O cara que ta debaixo da cama não lhe contou?
- Porra! vamos acabar com essa bagunça? O que é que tá acontecendo aqui?
A esposa continuava tranquila, deitada na cama.
- Amor, por que é que você não vem deitar de uma vez?
- Deitar? Deitar??? O que é que você pensa que eu sou?
- Bem... quer mesmo que eu responda?
- Aaaaaaaahhh!!! você quer deixar de ser tão cínica e me explicar que bagunça é essa na minha casa?
- Que bagunça, querido?
- Como que bagunça?
- Ei, amor, já percebeu que desde que chegou você só faz perguntas?
- E o que você quer que eu faça? Que me deite tranquilamente e esqueça que tem um homem debaixo da minha cama e outro dentro do armário?
- A propósito, que horas são?
- Que diferença isso faz?
- Como que diferença isso faz?
O homem que estava debaixo da cama se levanta e vai saindo de mansinho.
- Ei, onde é que você pensa que vai?
- Quem, eu?
- E quem mais seria?
- Bem, é que já é bastante tarde e você sabe como as mulheres ficam quando a gente demora muito, não sabe?
O que estava no armário põe a cabeça pra fora.
- Nesse caso, eu posso ir também?
- Peraí!!! alguém quer me explicar que porra é essa?
A esposa levanta, segura o marido pelo braço e o leva até a cama, enquanto os outros vão rapidamente embora.
- Querido, você acaso já ouviu falar em sir Arthur Conan Doyle?
- Sim, e daí?
- Sabia que no final do século XIX havia uma tribo de xipófagos que habitava as margens orientais de um lago muito estranho conhecido em toda a Austrália setentrional e Ilhas Canárias pela influência que as experiências com detonação de bombas atômicas nos anos 50 provocaram nos cérebros dos seus descendentes de terceira geração, inspirando o autor daquela célebre propaganda de vodka a dizer que eu sou você amanhã?
- Ah, é? Bem... não, mas e daí?
- Daí que... Ah, vamos fazer um trato? Já é bem tarde e a gente tá um bocado cansado, né? Que tal se nós formos dormir e amanhã eu explicar tudo direitinho?
Ele achou melhor aceitar o conselho. Afinal, estava mesmo muito confuso, quase jurando que era tudo efeito do álcool. Deitou. E já estava começando a dormir quando a mulher sentou-se à cabeceira da cama e acendeu a luz do abajur, furiosa.
- Ei! posso saber por que o senhor está chegando em casa uma hora dessas??

28 Outubro 2008

poemas de gaveta

cúmplice

outra noite
e sequer suspeito
que me engulas
quando distraído
tecer um último verso
antes de dormir

o espelho de narciso

água de um lago secreto
nos quintais da infância
quando se olha
no espelho do quarto
de dormir

lágrima de uma ferida aberta
no espelho da alma
quando o jardim da infância
não ameaça apenas
recomeço

certas ladeiras

nessa cidade da Bahia
ao pé de cada ladeira
habitam ritmos de cheiro próprio
como a cor negra
da pele de sua gente
sem cor
porque sempre é noite
e sobre os barracos sem portas
sobre o asfalto violado
sobre cada uma
das suas montanhas de lixo
trafegam os ratos
que insistem
destruindo as escadarias
que afinal
não dariam em lugar algum

sereia de rio

querias acaso
alguma outra cor
além do mar que destilas
entre os olhos vadios
como se fosse
a sereia de um rio?

como se não sentisse
frio
e fosses assim
como a vaga ausência
de uma memória
em seu sexo de peixe?

18 Setembro 2008

Batatas fritas

Não, não, menina. Não me venha falar pós-modernidades intuídas enquanto dobrava a esquina. Não aqui, em mesa de bar, com esses olhinhos brilhando a vodca nacional e rodeada por gente esquisita que não pára de adivinhar abobrinhas entre um e outro gole de cerveja. Sei até da sua preocupação com o rumo das coisas, a quebra da bolsa em Wall Street, o descrédito dos políticos, o aquecimento global, o peso da idade no rendimento técnico do Ronaldo Fenômeno, a falta de poesia no sindicalismo nacional, o aumento no número de abortos na Paraíba e as sacanagens do destino na vida dos personagens da nova novela da Globo. Eu sei. Me preocupo também, embora ainda não tenha lido a biografia autorizada de Paulo Coelho (mas você não sabe disso...). Agora, não me senta assim, à minha frente, com essa minissaia sorridente e ar distraído procurando uma cadeira vazia no bar cheio.
- Oi, posso sentar com você?
Não, menina. É claaaaaaaaaaro que pode, mas fazfavor de não lembrar que a gente até já se encontrou naquela festa na casa da Virgínia e pintou um certo clima mas não rolou nada. Diz apenas que ta fazendo fotografia, que eu posso inventar um livro qualquer pra lhe emprestar. Fala até desses caras metidos a artista que ficam a noite inteira biritando dialética, mas que na verdade ainda não conseguiram digerir a postura da nova mulher independente e ficam o tempo todo olhando apenas pras pernas dela. Que eu concordo plenamente. Quer dizer... Eu nego! Não, não, não quis dizer que suas pernas não são bonitas... Cê pode até ta certa por um ângulo, mas se a gente olhar a coisa por outro lado... Garçom, traz outra cerveja!?!
- Tinha uma coisa que eu tava até a fim de falar com você.
Já tomou quantas vodcas? Parei de contar na quarta e acho que não faz muita diferença, mesmo, porque você está sempre assim, alegre, independentemente de estar bebendo ou não. A não ser que seja eu que só a encontro em bares e festas. Pode ser. Será que já ouviu o disco novo da Maria Rita? Com certeza. E simplesmente amou o comentário do Hagamenon. Ou não... Mas o que era mesmo que você queria falar comigo? Não, não, menina. Nada de entusiasmo bandeiroso ou expectativa de qualquer espécie. Há certas pessoas e situações cuja energia prescinde maiores explicações. Não que deva necessariamente deixar tudo correr apenas por conta da empatia, você sabe... É que eu sou escorpiano com ascendente em sagitário e essas coisas escapam. Qual é mesmo o seu signo?
- Olha, se você não tiver a fim pode recusar. Não vai ser por cauda da nossa amizade, nosso carinho, que você tem que aceitar...
Ora, menina. A gente já se conhece o bastante, se respeita o suficiente para que essas coisas possam ser conversadas abertamente, numa boa, sem grilos. Afinal, nossa amizade foi mesmo feita em mesa de bar... E chegou ainda a acreditar que todo o esforço que eu possa ter feito pra dissimular não foi lá muito convincente. Afinal, por mais que se trabalhe um relacionamento, sempre restam pontas a serem aparadas e isso só se consegue com uma boa dose de diálogo. Você não iria mesmo acreditar se eu dissesse que um bom conhaque também ajuda, portanto, fico calado, olhando nos olhos. Você parece mais bonita que nunca. Descruza as pernas com elegância (adivinho, apenas, por baixo da mesa) e maneja o copo de vodca com habilidade irrepreensível.
- Não, pensando bem,a gente mal se conhece e pode até soar estranho de minha parte...
Mulheres!!! Se eu não tivesse lido aquele livro do Bucowski em pleno final de adolescência iria acreditar mesmo este papo de charme e sedução como ingrediente natural e inevitável à condição feminina, enquanto fêmea. Mas a minha tão duramente batalhada postura aberta e propositiva em relação ao equilíbrio entre contingências carnais, sociais e culturais ante a possibilidade de sublimação via intelecto, psique e espírito, me levou a ponderar civilizadamente e parar de apertar o seu pescoço imaginário e lindo. Outra cerveja mais e você poderia novamente estar de volta àquela mesa de bar, bebericando indolentemente a sua vodca e, quem sabe, até mesmo alheia ao drama interior que queimava meu corpo inteiro e me fazia acender o terceiro cigarro pelo filtro.
Não, não, menina. Você não pode fazer isso comigo! Mas eu faço força pra deixar bem claro que é você quem tem de decidir, afinal. Não que eu esteja indiferente, não é isso, mas sacomé... A iniciativa foi sua. Então, fala se quiser, porque eu estou aberto e...
- Tabom, eu vou dizer!
Quase displicentemente, levei à boca o copo de cerveja mais tremido da história da boemia universal, enquanto tentava (sem conseguir) manter um ar levemente despreocupado e pouco ansioso. Você então olhou pra mim, suspirou baixinho como quem busca coragem e, com os olhinhos brilhando a vodca nacional, disse:
- Me paga uma porção de batatas fritas?

eolos

esse jeito inquieto
de interpretar a todos
com o silêncio
- de onde vem?

e por que o vento
nesse jeito estranho
de ser tão leve
e acariciar o vazio?

se toda a poesia do mundo
fosse a calma
desse olhar vagabundo

não seria afinal
o poeta

a conceber a resposta?

03 Junho 2008

Você tem fome de quê?

se um dia eu não tiver cores
o suficiente para decifrar
o silêncio
desse seus olhos tão negros
não se importe tanto
aperta minha mão bem forte
entre as suas pernas
e deixe que o resto faça as rimas
que precise
ou então dê um jeito
de deixar que o destino
prove a sua fome
e sonhe com tudo o que poderia
comer

Aviso a navegante!


Se é a primeira vez que você visita este espaço, vale a pena conferir a história que conto desde o começo e que aqui encerra o ciclo.
Então, veja as primeiras postagens!
Mas a partir de agora, pretendo publicar umas Crônicas Ultraleves e um ou outro Poema de Gaveta...

Mangabas

uma experimentação, jogando e brincando um pouco com uma outra paixão: o cinema


PRIMEIRA CENA (lento fade-out, com personagem enquadrado num plano americano, imagens em flash-back):
Eram cheiros, sons e cores que passavam pela memória como mangabas prontas para mofar e serem tão podres quanto a idéia de futuro que lhe chagava. O suro escorrendo pelo pescoço da pessoa a quem se oferece amor ou a fumaça escapando cheia de raiva num engarrafamento de meio-dia. O silêncio anônimo daquele canto de mar repleto de sereias insidiosas ou Wagner na vitrola e vodca na cabeça, como a solidão extrema, pungente solidão nos olhos daquela mãe argentina na Plaza de Mayo. Ou pores-do-sol, luas de cetim e lábios de mel, marcas de biquínis no Porto da Barra. Tudo feito para que ele se sentisse só, para que apenas palavras logo não fossem mais possíveis. Ele toma outro gole. Wagner insiste, como uma dor de cabeça intermitente.

SEGUNDA CENA (em close-up):
Não lhe parecia menos que indecente ter tanta dor e não poder guardá-la, em tal medida que seria lógico desejar tanto estar mais íntimo e próximo da sua fúria verdadeira. Mas ela iria embora e talvez até soubesse onde o poderia levar. Talvez mesmo ansiasse por isso e não fosse tão seu escravo a ponto de esconder de si mesmo o seu poder de apodrecer aquilo que toca. Mas olhava as mangabas e talvez fosse podre, afinal.

TERCEIRA CENA (lento travelling, que parte do primeiro plano até um plano médio):
Por trás do silêncio havia algo. E era certo que, se buscasse a dor cada vez mais, as palavras jamais o devolveriam ao dia e o sofrimento, sim, seria sem prazo para terminar, como o foi o desejo do primeiro gole. A agulha da vitrola agora dá voltas em torno de si mesmo.

QUARTA CENA (fusão para o enquadramento em plano americano):
Superado o medo, ele teria ido até o fim e o limite seriam todos os papéis e tintas do mundo. E mesmo assim permaneceria inútil, porque inútil é insistir numa dor que sequer lhe oferece o nome. Havia apenas a mistura, os cheiros, sons e cores. Estava fraco para continuar e resolveu entregar-se.

QUINTA CENA (corte para primeiro plano, em slow-motion):
Foi sempre assim. Talvez por isso entregasse à poesia o dom de dar razão ao inatingível. Lugares comuns, vagas palavras e nada mais além do que uma outra pessoa pudesse buscar dentro dele. Acende um cigarro, toma outro gole e desiste de continuar escrevendo.

SEXTA CENA (plano geral):
Nada mudou. Talvez, na janela, alguma ameaça de amanhecer, como prova da inutilidade de todos os medos noturnos. As mangabas apodreciam, mas o tempo já parecia preguiça. Logo, o sol.

EPÍLOGO (em plano geral, lento fade-out):
Rasga os papéis, esfrega o rosto com as mãos. Acende um cigarro e volta a procurar as anotações na cesta de lixo. Sempre indeciso. Havia apenas uma coisa que, reconhecia, sempre lhe faltou: coragem. E isso sequer era uma questão de tempo.

12 Abril 2008

Perpétua

Texto publicado no folheto Brainstorm, em 1987.


Enfiou a chave. Um suspiro e outro, mais demorado. Sempre deixava cair os ombros, resignado, quando percebia que este era um ritual repetido há muito tempo e que, talvez, lhe incomodasse. Talvez, mas sempre estacionava o carro na garagem, indignava-se com os já familiares palavrões nas paredes do elevador, procurava as chaves no bolso direito do paletó, embora elas sempre estivessem no esquerdo, e suspirava duas vezes antes de entrar.
- Querido, foi bom você ter chegado. Temos um problema gravíssimo!!!
Era Perpétua, até a morte... Mexia nos botões do aparelho de tevê.
- Olhe!
- Sim, e aí?
- Como “e aí” ??? O que é que você tá vendo?
- Nada.
- Poisé, nada, nada! Esse é o problema, não se vê nada! Nossa televisão pifou, quebrou!!!
Arrastou os olhos do rosto indignado de Perpétua até a tela negra e silenciosa. Meteu a mão no bolso, tirou a carteira de cigarros e os fósforos. Acendeu um cigarro, tragou demoradamente e ficou observando a tevê, em silêncio, jogando fumaça em cima dela. A imagem de Perpétua entrou em foco, cabelos longos soltos, camisola azul transparente, pouco acima dos joelhos redondos que ele tanto admirava. Ainda em cena, ela deslizou pelo segundo plano e o abraçou por trás.
- Morzão, cê não vem?...
Do canto esquerdo do vídeo, Tostão cruzava uma bola redondíssima para Pelé cabecear. Mas o goleiro italiano, atento, jogava a pelota pra escanteio. Porra! isso devia ser proibido, pensava ele. Como é que se marca a decisão do campeonato do mundo justamente no dia do seu casamento?...
- Comequié, cê não vai fazer nada?
- O que é que você quer que eu faça?
- Manda consertar, uai!?!
- Tacerto, amanhã eu telefono pro técnico e...
- Amanhã? e minha novela?? e o capítulo de hoje???
Não seria de propósito, mas aquele foi o melhor sorriso mal disfarçado que ele já foi capaz de oferecer a alguém.
- Paciência, né, Perpétua...
- Paciência, paciência, paciência... né Perpétua??? É só que cê sabe falar! Você é mesmo um babaca, um imprestável, um idiota, cretino e inútil, é isso que você é!!!
E bateu a porta da cozinha, chutando cobras e lagartos. Apenas um pequeno intervalo até o próximo round, sabia. Portanto, não seria inteligente esperar nada muito especial para o jantar, Melhor, era bom não esperar nada. Tratou de preparar uma generosa dose de uísque nacional.
- A velha tá braba hoje...
A filhinha, com os peitinhos querendo rasgar a juventude inconcebivelmente decotada.
- Merda, não tô encontrando...
A doce Perpétua, hoje já nem tão recatada. Do outro lado da sala, no sofá, a filhinha namorava. Enterrado na poltrona, com ar de pai, ele equilibrava o copo de uísque, duas pedras de gelo e o cigarro. Cinzas no carpete e, não havia como confirmar, pois a tevê estava quebrada, provavelmente as forças de ataque iraquianas dizimavam mais uma aldeia na fronteira com o Irã, causando a morte de milhares de inocentes, recrudescendo a situação de uma guerra que ameaçava não terminar nunca. E isso era tudo o que ele podia deixar como herança.
Espiou o relógio na parede. Nove e quarenta. às dez teria que ir embora e ainda não havia surgido oportunidade para ao menos um beijinho em Perpétua, quanto mais... E ele tinha direito a alguma coisa, pelo menos. Quase uma hora de viagem, dois ônibus, papo furado com os coroas, três anos de namoro certo, no sofá. E boas intenções, ora. Mas não havia folga. Um olho na televisão e outro neles. Então percebeu que a tomada do aparelho ficava atrás do sofá onde estava sentado e, num movimento ágil e despercebido, puxou o fio bem no meio de uma importante seqüência da novela.
Deus nos acuda geral! Mexiam nos botões, antena, válvulas, mas a caixinha mágica permanecia muda. Era a hora de agir. Com ar de entendido, perscrutou o aparelho e logo diagnosticou um problema, coisa fácil de resolver, mas precisaria de uma ou duas chaves de fenda, talvez uma chave inglesa, arame, parafusos, esparadrapo, alicate, tesoura, pregos, maçarico... Os velhos correram a buscar o material. Perpétua também, mas não conseguiu passar do corredor. Foi agarrada pela cintura e não resistiu ao ser levada ao canto mais escurso da sala.
- Acheeeeeeei!!!
Perpétua invadiu a sala com um ar de vitória. Tinha um brilho insano nos olhos esbugalhados e agitava estabanadamente um par de binóculos. Ninguém entendia nada. Com um gesto de desdém, pendurou-se na janela e apontou as lunetas para o prédio vizinho.
- O que é que está acontecendo?
- O Ricardo encontrou a Sílvia nos braços do Oscar. Estão discutindo. Ih, parece que vai dar briga!
Realmente, enquanto tudo isso acontecia, os garotos preocupavam-se em aproveitar, folgadamente, das alternativas que pode oferecer um decote generoso. Isso em pleno sofá. Mas dentro da sua casa, pensou, eles primeiro teriam que passar por cima da sua poltrona, antes de deitarem-se sobre o seu cadáver. Cerrou os punhos e esmurrou com toda a força a mesinha-de-centro, fazendo saltar do lugar o quadro colorido de Che Guevara.
- Pouca vergonha!
- Virgem santa, a coisa tá ficando preta!
Perpétua gritava eufórica da janela. O rapaz se levantou, tinha a sua dignidade. Mas raiva de pai é raiva de pai...
- Seu moleque pernicioso!
- Velho retrógrado! reaça careta! cetáceo senil!
- Pernilongo imberbe! subversivo! punk!
- Malufista!
Isto o fez perder a cabeça. Possesso, agarrou o garoto pela camisa e o empurrou com violência contra a parede. Ele reagiu e logo trocavam tapas e bofetões pela sala.
- Cruz credo! Foram às vias de fato!
O garoto, malhadão, quase dominava o velho preconceituoso quando este conseguiu se desvencilhar dos seus braços tatuados e sacar de um revólver. Perpétua, à beira de um colapso nervoso.
- Céus, enlouqueceu! Está apontando uma arma!
Dois tiros explodiram, secos e certeiros. Plim! Plim! O corpo do jovem surfista rolou pelo chão, manchando de sangue o carpete que fora limpo naquela mesma tarde.
- Oooooooooohhhhhhh... ele está morto. E agora? E agora?
O inescrupuloso assassino voltou-se então para a donzela assustada, no canto do sofá. Perpétua apenas acompanhava aquela cena sanguinária e vil.
- Oh, o Ricardo partiu pra cima da Sílvia, puxou-a pelo braço, está rasgando toda a sua roupa...
Torpe de ódio, o ser pestilento a agarrou pelo braço. Ela se debatia, tentando escapar, mas ele a esbofeteou, fazendo em pedaços as suas vestes. Nada o detinha em suas inconfessáveis intenções. Tirou-lhe primeiro a blusa, fazendo indefesos os pequenos seios. Arrancou-lhe ainda a saia, deixando-a apenas de calcinha...
- Ah, mas ela conseguiu escapar e correu para a porta. Oh, não! O maldito a alcançou, está com as duas mãos em seu pequeno pescoço. Está apertando, apertando... Ela está ficando vermelha, cinza, verde, azul... Ela está preta, pretinha da Silva, a pobre Sílvia...
Perpétua, perplexa, via os olhinhos da pobre moça úmidos de súplica, esperando a piedade do seu algoz. Em vão. Com expressão hedionda, ele prosseguia em seu intento.
- Maldito! alguém precisa fazer alguma coisa!
Perpétua estava em prantos, mas seu sofrimento ainda não terminara. Afinal, que novas maldades Ricardo seria capaz de engendrar? Quem seria a próxima vítima do seu ódio indomável? Estas e outras dúvidas, no entanto, somente seriam respondidas nos próximos capítulos.
Resignada, Perpétua apoiou os cotovelos sobre a janela e voltou os olhos para o rosto transfigurado daquele homem, aquele que um dia ela havia escolhido para ser o seu marido, companheiro das horas boas e más, até que a norte os separe... Não foi capaz de conter um longo e sincero suspiro. Ele a olhava fixamente.
- Muito bem, minha querida Perpétua, agora é a sua vez...
- Está bem, você venceu. Não vamos prolongar isso por muito tempo. Responda-me apenas uma coisa, Ricardo. Como é que você quer o filé, ao ponto ou mal passado?

08 Abril 2008

Manoel e Madalena

PRELÚDIO – Pequena narrativa da aventura de Madalena, a Sem Nome

Pois foi de vela acesa e fundo que passou, pois a viram moribunda e abacate com o jornal de partida, acariciando os olhos e se dizendo sortida de infinitas boas maneiras. Para então ir a Sampaulo e, fosse vedete ou detergente, pulasse café num viaduto qualquer, sem colher de chá. Enquanto em seu quarto, o pai torrava borracha de torresmo nas bochechas sem dentes, sobre a foto, flamejante do líder excitado da torcida do Flamengo. Mengôôôôôôôô! Mengôôôôôôôôôô! fazia o rádio doente de tanto tempo, enquanto curtia frio e gol de goles secos e cervejas no boteco. E foi assim, como dito, feito de vela acesa que ela fundo passou, mais cedo do que pensou seu pai. Ai, filha, ai, lá vai mais uma, mais uma, goooooooooooool!

TOCATA – Síntese profunda da peleja madrugada de Ivone, dito Manoiel, nas encostas onde esperava Madalena

Ora descia as encostas do morro onde morava, morria e torrava sua beleza em tez de insensata cor já cimentada. E ora apenas sentia dor e dizia agora nunca mais. Mas por enquanto esperava Madalena madrugada cadena adentro, às suas ordens infernais, de cachaça nos bolsos contrabandos. E era sempre contrafeito que voltada do trabalho, o malfeitor, como transeunte ausente, satisfeito de horas em que lembrava da senhora sua mãe, também grande filha de uma puta, que com uma ponta de recordação lhe fez Ivone, trepando com Madalena, que até hoje aposta: voltará serena pelas areias morenas de cordéis pernambucanos, de bordéis americanos, das tristes costas do Mediterrâneo, onde aprendeu a sua amada Madalena a amar nos camburões, com a goela no pau à altura dos culhões e cacetetes. E era tanta a fome, foi comendo os olhos da cara lavada com óleo de rícino, quando lhe faltava sonrisal à feijoada. E a vela da Madalena que nunca chegava...

FINALE – De como se fez infante esse amor errante da doce Madalena puta com Manoel, dito Ivone, nas encostas onde travestia a vida

Assim foi feito, de aguardente espera, a sua lógica matemática de tempos que tempos, frente à janela, como quem penteia os cabelos com dedos amarelos de chocolate brancos. E ele e ele e ela, todos infantes, mesmo que ora feito Manoel e ora a mundana Ivone, a criar diademas nas diversões dos parques onde bancos eram as palomas de asas operárias. Isso ao meio-dia, andando pela via contrária, na contramão da vida cumprida – nem tão comprida assim – das anhangueras assanhadas vendidas putas e assadas ao dengo de dendê das baianas do acará e do jeremoabo, terra onde se esconde cadela a Madalena, moça bonita que de tão dela, deu-se de ir sirigaitando com um fogo–pagou e, ao mesmo tempo, tão amazônica como um extintor de incêndio vazio, vagando ao centro nervoso urbano, onde vadia as ancas e cheira cola num colchão de molas da sua avó infantil de puberdades. Mas foi mesmo num caminhão que um dia veio de rastro o Manoel, disposto e querubim de indefinidas donzelas. Roubava-se das mazelas onde vendia-se ao leito em pó de razoáveis aquarelas, pois buscar desesperado de ira a sua perdida Madalena lhe era de chama. Tanto, que maldito lhe fizera o punhal e de braço disse aos ventos da razão dos seus tormentos e, traços modos, derrubou a geladeira em pequenos cúmulos, no meio da praça. E pôs-se a cavar ventania. E pôs-se a fazer sertão todo dia, como quem desafia a lua de prostituta agonia. E, finalmente, de louca luxúria, feria a si próprio no beijo. Vencido, foi ao túmulo de inconformada romaria, enquanto inocente a sua pequena menina, que de Maria se fizera Madalena, permanecia doente de fechar becos e lamber a boca nas olheiras feridas da sua tão certa aventura... Mas dizem que de tão coincidente, pôde ser vista Maria adentrar, certo dia, toda contente de véus, uma igreja de bairro Madalena ainda, onde a esperava um certo Manoel, aquele seu homem que de coragem e fome, terno e gravata vestia para dizer sim ao que ninguém jamais travestia.

01 Abril 2008

DO OUTRO LADO

crônica publicada originalmente no folheto Brainstorm

Um livro qualquer entre os dedos e quase uma certeza, aquela seria uma noite sem telefonemas, uma noite irremediavelmente cheia de recordações. Como aquelas noites de escrever poemas na varanda, às escuras, coçando a cabeça de Lennon diante do olhar enciumado de Yoko. Ligou pra mim, tipo “dá um tempo qu´eu já chego”.
Eu estava aprendendo com quantas doses de uísque se faz um tempo, mas as pedras de gelo insistiam em derreter e eu quase pedia a Yoko que me preparasse o próximo copo. Ela apenas me olhava, adivinhando isso. E balançava o rabo, negativamente. Era muito preguiçosa, aquela cachorra, mas tinha um latido absolutamente latino – e isso me encantava. Lennon, não. Estava sempre arredio e inquieto. Era como a sua baby sitter, que ouvia um disco de Gismonti atrás do Gil.
Seus pais estavam em Londres e Yoko era só preguiça e eu acariciava a cabeça de Lennon e a baby fumava com uma elegância irrepreensível, um cigarro atrás do outro. E agora estava ali, tornando importantes essas coisas que a gente nunca imagina, mas passam. Um pouco mais e tocava o telefone. Mas aquela deveria ser uma noite sem telefonemas e deixei-o gritar meu nome o tempo inteiro, sem resposta. O tempo além da varanda não cheirava a nada. Aqui haveria jasmins, pois Lennon balançava a cabeça e Yoko a cauda, mansamente.
Afinal, parou de tocar. E eu nunca conseguira me sentir tão só, mas voltei a balançar na rede as pedras de gelo no copo de uísque. Sabíamos que Londres seria mais cedo ou tarde ainda, mas foi possível fechar os olhos.
Então voei até aquele pequeno sótão de degraus desconfiados. Um móvel aqui, um tapete velho ali, uma bagana, um pôster em preto e branco da Eliz, um disco do Jimmy, caipirinha quente com cachaça importada e limão de sabor duvidoso, um telefone inútil... Eu não sabia atender em inglês e ninguém iria ligar, mesmo.
Mas aquela rede estava em Itapuã agora e não precisaríamos pensar em Londres. “Como é que vocês estão? Parece sério...” Até o carteiro chegar para trocarmos meio litro de leite pelo pó amargo do guaraná em pó. Eu sabia lavar os pratos e balançar na rede enquanto esperava. E a gente fazia a maior bagunça quando fazia amor. E Lennon fazia festa pelos corredores. Yoko fazia que dormia, pra não incomodar.
Se o telefone estava no gancho, eu não lembro. Sei que não o ouvi tocar. Antes o roçar das folhas nas folhas do pé de jasmim, enquanto a janela estava aberta. E a janela estava sempre aberta. Enquanto a gente trepava e trepava noite toda. Ela mordia a minha orelha e não cobrava nada, nem um telefonema. Foi assim que eu aprendi a não dar ponteiros às minhas angústias.
Sim, mesmo assim ela sabia se fazer presente, impossível menina, enquanto a noite escorria sem outras circunstâncias. E quanto mais procurava me certificar de que aquela seria uma noite sem telefonemas, mas absurda ficava a idéia de que ela não ligaria. E mais e mais ardia. E saquei o fone do gancho antes que a coragem escapasse entre os dedos. Beep, beep, beep...
Da outra vez que estive em Londres algo havia mudado. Ainda era aquele pequeno sótão de degraus desconfiados. Um móvel aqui, um tapete velho ali, uma bagana, um pôster em preto e branco da Eliz, um disco do Jimmy, caipirinha quente com cachaça importada e limão de sabor duvidoso, um telefone inútil... Mas alguma coisa estava diferente. Talvez o telefone, que antes não incomodava e agora ardia em pequenas agulhadas. Beep, beep, beep.
Eu ainda sabia lavar os pratos e balançar na rede, esperando, esperando... Eu seguro um livro qualquer entre os dedos e saio rasgando as suas folhas com delicadeza. Como o tempo, não importa com que intensidade eu as faça em pequenos pedaços. Elas se desmancham, lívidas, suaves como quem insinua felicidade, apesar de ser cada vez mais e mais saudade e ter um preço impresso no verso.

28 Março 2008

Papel Ofício

I

o poeta
como um grito
conta as gotas de chuva
na janela

enxuga as palavras
e tenta reinventar
um rito
que torne menos dolorosas
as arestas do tempo
estacionadas em poeira
no canto do quarto

num suspiro
visita os livros e a estante
escorre como dedos
reunindo poros
no ofício de criar lágrimas novas

II

o poeta
como o choro de alguma criança
distante e pungente
lancinante a ensaiar na memória
um sopro de eternidade

III

a vida
é morna
(ele sabe
com alguma certeza)
e a morte nunca foi
uma porta

seu forte era ensaiar o medo
por trás das retinas
mas descobriu ser inútil:
a pólvora
e o fogo
não são começo e fim de coisa alguma
antes esquecimento

IV

o poeta
como a manhã: insensato

V

o poeta
é um limite
inextinguível
de si próprio

chama acesa
no perder-se imóvel
da janela

o improvável
e pássaros presos
na garganta

o poeta
é solitude
e longe fica
o seu ninho

carinho
quando anunciar do óbvio
e descoberta
do imponderável entre os dedos:
uma gota
de orvalho
sobre o muro de pedra
mostra àqueles que possuem poros
a espessura da manhã

11 Março 2008

Revelação


Brainstorm


Brainstorm, folheto publicado em 1987, contou com belíssimas ilustrações do artista plástico espanhol Guillermo Gallego.
e teve poemas como:

fome concreta



segunda arroz com ovo e pão
terça ovo com pão e arroz
quarta pão com ovo
quinta ovo com pão
sexta pão com pão
sábado pão
domingo (ah
como essa fome
é concreta...)

o inseto de sempre

poema inseto

um verso
incompleto
investe contra
um inseto
na mesa
interrompe o crepúsculo
para ser
apenas
esquecimento
e vencer o papel
sem ser nada
além
do seu caminhar
meio sem
destino

poema de sempre

provavelmente
milhões de formigas
inauguram universos
por puro acaso
enquanto fazem sóis
e estrelas
entre amor entre elas
apenas para garantir
a perpetuação da espécie

Itaparica

tão bom
quanto escrever besteira
na areia

enquanto o tempo
resiste aos movimentos da terra

tão certo
como é perto aquela ilha
e nem é lembrança
é antes o encanto das pedras
na areia da areia da praia




07 Março 2008

beat or not to briefing

a produção independente brainstorm teve poemas como:

beat or not to briefing

mais um copo
certamente
não compromete a conta

… mas também
não arrefece
a chama
não aquece a cama
não
diz
que me ama

mais um copo
decerto não faz a noite
menos profana
... mas também
não arranja
um programa
não conquista uma dama
na descola
baganas

porque afinal
outro copo não encanta
não engana nem ensina
ninguém
a compilar rimas
em nome de quem se ama
então

- garçom,
traz mais uma Brahma!!!



espelho

um homem só
faz seu próprio
tempo
e seu espelho
é o único medo
pois algum grande segredo
ainda o espera
na parede do quarto
onde nem ao seu rosto
revela
o quanto faz falta
esse sentimento sem pressa
que guarda
o silêncio de sempre

29 Fevereiro 2008

contraVersos

quasesoneto bêbado

ela chegou
escolheu uma mesa
sentou
e pediu vodca

enquanto bebia
eu reinventava o silêncio comum
de qualquer poeta perdido
entre copos num bar

e o sentido da vida
ficou misturado às pedras
de gelo

chovia lá fora
mas isso era uma questão de tempo

merchandising

havia pouco ardia louco na mesa
era uma mesma cerveja somente
e apenas uma cadeira vazia

feito alegria e semente
algo em seus olhos trazia
o gosto de igual aguardente e poesia

e dizia coisas esquisitas
que bem ou mal (é evidente)
ninguém traduzia

e então deduzia de rima em ira
que imã fazia em seus goles
o que sua própria garganta feria

decidiu entrementes (de poema que era)
que fosse menino ou fosse fera
ao poeta daria apenas o que negara

e de aventuras fez-se amor
sobre avelãs e romarias
que noite inteira lhe invadiam

pois de pensar que pouco a louco
havia uma parte que ardia
e outra que lhe pedia o troco

Contraversos (revelação)

quero a luz
do olhar que cada menina esconde
quero esse longe
onde fica o ninho espesso
da poesia
quero a distância que fazia
o último azul de um lago que já secou

pois ainda sou
e faço
solidão do mesmo corte
do mesmo aço que feriu
de morte
o poema inacabado
desse baldio de tantas faces
tanto mar...

quero o sincero do choro duma criança
para que o poema
prossiga em seu ofício
de abrir portas ao acaso
enquanto são traçados os planos
de um futuro lugar comum

pois ainda busco
os mil pedaços
desse medo
em estilhaços pelo quarto
do espelho que o poeta quebrou
numa noite calma
e sem afagos

quero
o vinho quente da pele
no meio das pernas que abraçam
a saudade
quero todo esse arder vulgar
tão transparente quanto a fronteira
de uma ausência

pois ainda esqueço
estrelas na cama
quando vou dormir
e crio gritos e versos
- a noite em chamas
atravessando universos -
pro poeta poder acordar

18 Fevereiro 2008

contraversos



(no verão de1986, ainda deu pra lançar mais este folheto, em nova parceira com Pedro Diniz)

Fogo brando

noite mansa lá fora
... provavelmente
a mesma monótona espera pela alvorada
da qual me falou Godard há pouco

talvez nem mais definitiva
ou menos vulgar
que a própria construção de sonhos
que a gente vai trabalhando
pacientemente
enquanto o tempo
destino
distância
se vão misturando para engendrar
novos segredos

uma noite
e tantos gatos e bêbados quanto becos
e bocas de fumo e praças vazias
e certo amor nos cantos dos lábios
ainda vermelhos

(quantas paixões
inda escapam à gula da noite?
... uma noite apenas)

Toques

nada mais profundo
que toque
superficial de pele
(quando há
claro tesão)
nada menos insidioso
que um certo
jeito no olhar
(quando se está nu
o suficiente para abraçar o mundo
com as pernas)


Trama

por mais que encontre poeira
num canto de parede

(intervalo de tempo
entre promessas de eternidade
e o efêmero de temer a morte)

eu insisto em achar
que a aranha
ao tecer pacientemente a sua rede
escreve no ar
a própria razão da existência

... pena que daqui do meu quarto
ou além dessas quatro paredes
as pessoas pareçam preocupadas
com outras tramas

e não possam ver o frágil inseto
construindo as armadilhas do destino


Notívago

oh, Bertold!
botei o teu retrato
divertido
diante da minha falta de sono
e entre goles ansiosos
de uma hipótese qualquer vagabunda
procurava uma brecha
em teus óculos de aros
absurdos
para ao menos explicar
porque ainda não havíamos dormido
numa noite tão sem propósitos
assim
mas teu fantasma apenas sorria
apenas sorria divertido
apenas sorria
divertindo as minhas dúvidas

- já dann
auf wiedersehen, camarada!


Quatro

solidão
é uma questão de copos
mas cada mesa
se faz em torno
de noites diversas

... imaginava o poeta
enquanto a rua
amanhecia esquinas
indiferentes a qualquer outra espécie
de aritmética


pra quando o carnaval chegar

num boteco remoto
entre esquinas tombadas
o poeta cheirava éter
enquanto esperava
o carnaval

uma das namoradas
fantasiada
num dos cantos da mesa
enrolava um baseado
parcimoniosamente

e do outro lado
em janelas postas
em louvor à velha igreja
os avós observavam
pacientemente

... mais cedo
ou tarde que seja
algum deles cairá
à sarjeta
como habitante das cinzas
quando for chegada a hora
de transformar a ressaca
em esperança


quarta-feira de cinzas

lembro agora
da Izzadora na ladeira
um entre tantos
fantasmas de carnaval
que desafiam a lei
da gravidade
para voltar à avenida
sem os compromissos
de maternidade
que tanto atormentam
esses tempos insanos
da adolescência da cidade


mais-leve-do-que-o-ar

os dias
sustentam por um fio
aquele silêncio
que transpira suspeito
entre as nossas camisas de linho
pesadamente
como uma inestimável dor
no peito
como medo em desalinho
como o frio de algum lugar
distante
escorrendo entre os meus dedos
a sua presença
decerto
mais leve do que o ar

14 Fevereiro 2008

viceVerso





também de 1986, outro folheto artesanal






Rápida cena transeunte

a moça de cabeça baixa
contava as dívidas em cheque
na avenida
e decerto duvidava
da força dos automóveis
pois ávida cruzava a rua
para ferir as vitrines
com buzinas de outras cores

Soneto para alguma fome anônima

postos sobre a mesa
o prato
facas garfos colheres
copos vazios

corpos ainda
dispostos entre a mesma
sala cadeiras família
a hora regular de um almoço

que grande metáfora
antecederia a sobremesa
se nos fosse possível

àquele momento avaliar
a quanto se vende nos mercados
tanta fome anônima

moto-contínuo

e eu fico em casa
numa segunda-feira
o dia inteiro sem fazer nada
quando sei que as máquinas
não param
não dão sossego os faróis
e piscam
os elevadores engolindo
vomitando pressas
eterno em gravatas
para que seja exata
a hora do almoço
quando cansados
fazemos as pazes com o tempo
e esperamos
nas mesas das mesmas esquinas
o ranger dos dentes da fome
para engrenar tudo outra vez

mais viceVerso


o folheto tinha um formato bem criativo e contou com a participação do poeta e jornalista Luis Eduardo Dórea


logomaquia

as nebulosas
quando é noite e todos dormem em seus lugares
emprestam o seu silêncio absoluto
às coisas
mas as casas permanecem casas e a rua
rua e os gatos
gatos solitários apenas
entre todo medo e solidão

quando é noite e todos dormem em seus lugares
meu pensamento fica tentando recriar
todas as formas novamente
e o máximo que consegue é ser denso
e permanecer silêncio

absolutamente
sem ser uma nebulosa nem perceber
que uma noite são casas e a rua são gatos solitários

enquanto o medo
é o medo é o medo é o medo
e nada mais

Quasesoneto de amor a São Paulo

a tua presença
por todos os lados
torna-me impossível a fuga
e já nem sei se quero

tu és imensa
e solidão seria o teu nome
mas aos poucos me deixo devorar
e já não me sinto tão frágil

assim (pleno como teu medo)
sei que em breve
serei apenas mais um

a mover essa força inominável
que te faz São Paulo

12 Fevereiro 2008

poesia de salto alto



Produzido em 1986, este folheto foi compartilhado com a então estudante de jornalismo Cynara Menezes. O destaque desta edição independente vai para o desenho da capa, de autoria do artista plástico Decaconde.

são desta lavra:

itinerário

no terminal rodoviário
a mulher negra
segurava uma criança ao colo
e outra dentro do ventre
o menino segurava um choro
cor-de-rosa ‘inda
e espremia um suco azedo
de laranja entre os dedos
de unhas de fome
imundas
e escorria sujo na insinuação
de um breve sorriso
(pena que leve como a pressa
a nossa esperança evaporou
no itinerário do ônibus
e não pudemos confirmar
se ele realmente sorriu
ou foi mais um aborto)

beijo de língua

assim
entre a saudade
e mais um impossível
de esquinas
prováveis
lá fora
você ensaiava
o encanto de não ser
qualquer gravidade
ao olhar
e enquanto flutuava no ar
seu corpo
entrava no meu
abrindo espaço
para mais um beijo
de língua

24 Janeiro 2008

Amante Escorpião


Publicado em 1985, Amante Escorpião foi um livreto artesanal, no qual tive como cúmplice o doidão Hely Daltro, de quem o planeta deve sentir saudades...




tinha poemas como:


o sino

um sino toca longe
eu sei
não tenho ouvidos para prová-lo
mas me vem não sei de onde
uma certeza aguda

ele toca

e de que me serviria o poema
não pudesse negar o silêncio
ou aceitar a dúvida

ele toca?


clarear

abro os olhos
o relógio insistente na parede
lembra a noite
lábios amor pasta de dente
e simplesmente anuncio
a todos os presentes
(cama paredes janelas silenciosas)
a vontade que tenho
de dormir
... e sonhar


angústia

um homem qualquer
passa severo pela minha mesa
observa-me os olhos
perdidos na mesa copos garrafas
vazias e imagino conter
sentada ao meu lado
a maior solidão do mundo
a única


viagem

faça uma viagem
pelo Caribe
tire do cabide
a roupa mais requintada
e não esqueça apressada
as peças de baixo e o frio
que faz em la paz
há de tenerse tambiém
la oportunidad de conocer
Punta del Leste
mas se a grana for pouca
Aracaju mesmo serve
ah, quem sabe Pequim?
mas traga lembranças
pra mim
enforque a segunda
e fique um pouco mais
a saudade a gente engana
o importante é jamais
pensar em parar
dia desses você volta
e a gente faz uma festa
de despedida
quando eu estiver pronto
para outras partidas
inda que tarde
e mesmo que passe
o último coletivo
e todo motivo do mundo
aconselhe ficar
mas Paris nos aguarda
la nuit n´espere pás
um minute a la plainte
e eu já não posso parar
de New York a Maragojipinho
é só um pulinho
the time spent fast
e o momento é somente
um sonho sem motivos
pra terminar

22 Janeiro 2008

Questionamentos antropofágicos




I

dispo-te
e como a tua carne
em antropofágica paixão
ou
afeio os versos
do poema do teu corpo
tão puro
e virginal?

II

por que seria
a tua buceta
escudo dos absurdos
em que te escudas
quando me dizes
não
(eu empunhando o desejo
como se fora
paixão)?

III

alguém me podia indicar
caminho mais fácil
(puro, assim entendido)
para o amor
que aquele trilhado ao sul
pela alameda de pentelhos
que brotam da fonte do umbigo
ou ao norte
entre a vastidão suada
de pernas ferozes?

IV

seria o orgasmo
um hiato entre o meu corpo
e o teu
ou o medo
uma ponte entre o meu desejo
e o teu?

03 Janeiro 2008

quasesoneto da lua




a pedra vazia
ainda não havia nascido
e o menino com olhos de mar
brincava com o silêncio

ele acabara de inventar
a saudade
e a lua explicava o amor
com olhos de medo

anoitecia
e eu perdia
o sono

aprendendo a dormir
com as estrelas

Paixão

de tanto visitar teus sonhos
tanto querer afagar teu sorriso
enquanto dormes ao meu lado
acabei ficando
tão parecido contigo
que confundo na cama
o meu corpo e o teu
e toda a cidade
sonha
sonha conosco
as juras de amor
que embalam teu sono
e me deixam acordado ao seu lado
inventando poemas

natural

uma pedra
impedindo a passagem
duma onda

espuma

e o branco
deveria ser
a areia

mais um pouco
e o mar engole
a pedra

o tempo não passa

mas a onda
já não encontra mais nada
em seu caminho

mar grande

breve
como espuma
e tanto
quanto olhar
profundo
o mar
mergulhar
e ser leve
como o tempo
e passar
sem medo
algum
ou quase
enquanto
longe
onde não chega
o pensamento
ele inventar
novas
espumas

24 Novembro 2007

poema exagerado

tão fácil
morrer entre cada
breve espaço
no abrir e fechar
dos olhos dela

pois um homem só
é dono de muitos fantasmas
mas aquilo que ele é
é capaz de deixar
todo medo pra trás

Campinas

um canto do mar
distante como olhar de sereia
seguia esculpindo insônias
na janela

(talvez não fosse
ela
assim como ruído de estrelas)

seguia farejando espantos
entre o canto dos lábios
e o sorriso forjado ao espelho
no meio da sala

(talvez não fossem
janelas
assim como ela)

seguia fazendo de novo
o que ainda nem era
saudade
nas luzes distantes da cidade

(talvez não fosse
o mar
tão longe assim)