23 Abril 2012

Ubaldo, o chato, e o tira-gosto da mulher do Chicão


Bebiam cerveja, dia desses. Final de expediente, no boteco da esquina, entre a promessa de não falarem de assuntos de trabalho e evitarem piadinhas infames. Claro, era impossível fugir de armadilhas como as perspectivas sombrias da economia internacional à beira da recessão, a ameaça de um dos verões mais quentes dos últimos tempos, o rebaixamento do Vitória para a segunda divisão ou os argumentos fraquinhos de quase todas as novelas de televisão.
            Mas tudo bem. Ninguém tinha lido a coluna do Joelmir naquela semana, a cerveja continuava descendo gelada, não havia torcedores rubro-negros na mesa e todos tinham tevê por assinatura e controle remoto em casa. Assim, diante da cara feia do ministro da Fazenda sempre que se falava em reposição salarial, optaram mesmo pelas piadinhas infames.
            Jane, provavelmente preocupada com o seu Tarzan, então em viagem de negócios, detestou as insinuações maliciosas de Ubaldo, o chato, acerca do envolvimento do rei das selvas com a inseparável Chita. Mas numa situação dessas, é imprescindível encontrar uma vítima em potencial na mesa, alvo natural para a catarse necessária, diria o psiquiatra de plantão.
            O garçom trouxe mais uma gelada e Ubaldo logo perguntou o que teria dito a outra Jane ao ver Tarzan e Chita subindo a colina num bonito final de tarde. Certo, este é o tipo de provocação que evidentemente não merece resposta alguma, segundo concluiu Jane.
            - Mas não é nada disso que cês tão pensando, gente.  A outra Jane apenas afirmou: “Olhem, lá vem Tarzan e Chita subindo a colina num bonito final de tarde”.
            Certo, ninguém riu, mesmo. Mas este tipo de piada tem seus risos calculados. Embora nem tudo estivesse perdido ainda para Ubaldo, que tinha curso de pós-graduação em chatismo avançado.
            - Muito bem... Mas então o que teria dito Jane quando viu Tarzan e Chita subindo a colina num bonito final de tarde usando óculos escuros?
            - Ah, me poupe! (desesperou-se a pobre Lea, que até então apenas acompanhava o martírio de Jane, entre uma e outra fatia de pizza lambuzada em catchup) esta é fácil demais. Ela disse: “Olhem, lá vem Tarzan e Chita subindo a colina num bonito final de tarde usando óculos escuros”.
            - Errado! (observou, esfuziante, Ubaldo, o chato) ela não disse absolutamente nada, porque não reconheceu os dois!!!
            Ameaçado de ter que pagar a conta sozinho, Ubaldo desistiu das piadinhas infames, mas estava decidido a não deixar a bola cair, apelando para portugueses e papagaios. Foi quando Lea teve a ideia de pedir carne-de-sol como tira-gosto. Os olhos de Ubaldo brilharam secretamente e, quando a porção foi servida e todos começavam a se deliciar com a pedida, ele decidiu aplicar o golpe final daquele dia.
            - Gente, vocês conhecem o caso do Chicão, que era dono de um boteco parecido com este aqui, muito ciumento, que tinha uma esposa bastante gostosa e fazia um tira-gosto de carne-de-sol tão delicioso quanto este que vocês estão apreciando agora?
            Todos estavam com um pedaço de carne na boca. Levantaram os olhos em direção a Ubaldo, esperando pelo pior. Senhor das atenções, o chato prosseguiu, com sorriso incontido no canto da boca.
            - Pois vou contar. No boteco do Chicão saía a melhor carne-de-sol dos sertões da Bahia. Preparada pela Raimunda, sua mulher. A fama corria longe e isso era bom pro negócio do Chicão, que tinha sempre casa cheia. Só por isso, ele - muito ciumento - suportava os insistentes elogios às carnes da patroa. Porém, de tanto elogio, um dia Chicão ficou com a pulga atrás da orelha. Uns amigos mais íntimos lhe alertaram que, na verdade, Raimunda estava servindo mais do que apenas carne-de-sol aos fregueses...
            Todos na mesa já haviam deixado os garfos de lado e escutam Ubaldo, resignados.
            - Pois bem. Um dia, Chicão deixou o balcão e foi nos fundos do boteco ver por que o tira-gosto tava demorando tanto. Então, cês já imaginam, pegou Raimunda naquela situação. Mas não disse nada, voltou pro balcão e ficou a noite toda pensando numa vingança. Dia seguinte, convidou o bairro inteiro para comer e beber de graça no seu estabelecimento. A casa lotou, foi a maior festa. Chicão distribuía a cerveja e fazia suspense para um prato especial que seria servido mais tarde. Claro, todo mundo perguntava por Raimunda e Chicão dizia que ela estava ocupada na cozinha, preparando o tira-gosto.
            Parou, olhou para todos na mesa, demoradamente, em completo silêncio. Saboreava o momento e, cheio de teatro, serviu-se de uma generosa porção de carne-de-sol antes de prosseguir.
            - À meia-noite em ponto, Chicão começou a servir o tira-gosto de carne-do-sol mais gostoso e elogiado entre o semi-árido baiano e as barrancas do São Francisco! No meio da festa, um engraçadinho decidiu perguntar, aos berros, pela Raimunda, responsável por tamanha iguaria. O Chicão, então, desembainhou seu inseparável facão de sertanejo e, de cima do balcão, anunciou triunfante: “Vocês queriam a Raimunda? Pois bem, sirvam-se à vontade, porque agorinha mesmo cês tão comendo a infeliz de maneira que nunca puderam imaginar!!!”
             Todos levantaram, numa correia mal disfarçada, em direção aos banheiros, tentando conter o vômito. Tanto na história de Ubaldo, o chato feliz, quanto naquela mesa, final de expediente, no boteco da esquina.

26 Março 2012

Assim dormiu Ludwig


Novembro de 1990

“Morrer de sede na beira da praia”. Ludwig ficara pensando nesta antiga expressão popular e, embora a considerasse algo besta, ainda perdia algum tempo matutando sobre o seu conteúdo simbólico, suas implicações semiológicas mais diversas. Apenas porque a ouvira, meio por acaso, numa dessas discussões apaixonadas sobre a quantidade de votos nulos e brancos das últimas eleições. Até que não dera muita atenção, de início, mas agora se via à cama, frio estranho e chuva lá fora, apesar do verão, que antigamente começava em setembro na Bahia, sem conseguir dormir por causa de uma simples e imponderável idiossincrasia da inteligência brasileira.

Pois foi assim que dormiu o velho Ludwig. Era um destas escritores anônimos obstinados, que ainda sonhava com algum prêmio literário que resgataria, de repente, todo o talento ignorado por mais de 50 anos. Pois começou a escrever poemas aos sete anos, contos aos dez e romances aos treze anos de idade. Quem sabe publicariam uma coletânea do seu trabalho no centésimo aniversário de morte?

A arte tem destas artes, meu caro. Mas claro, alguma sereias quase nuas nadando pela telinha nas praias de Fernando de Noronha o ajudaram a dormir nesta noite, com alguma ajuda do uísque nacional servido em copo de extrato de tomate sem gelo. As chamadas do Jornal Nacional davam o clima insustentável do apocalipse agora, antes tarde do que nunca. Mas sempre moderno, pois não.

Pois foi assim que dormiu Ludwig. E assim acordou, um tanto sobressaltado e com ressaca, sem saber se havia ou não preparado o relógio digital paraguaio para um dos horários de verão brasileiros. Sentou sobre os lençóis de linho falso e vagabundo e pensou em Matilda, apenas porque lhe pareceu poética a citação. Em verdade, nem sabia quem era Matilda. Talvez uma dessas personagens da Sessão Coruja. Mas não podia perder uma chance dessas, certamente valeria nota de rodapé inteligente e misteriosa quando publicassem sua biografia daqui há uns cento e trinta anos.

Queria fumar um cigarro. Outro. Não tinha certeza de quantos já tinha fumado desde que começou, pouco antes de se arriscar no vestibular e perder pela primeira vez. O maço estava ainda sobre a cama, faiscando diante da luz inquieta da televisão, provavelmente no finalzinho do Corujão da Madrugada. Estava lá, o maço. Mas vazio. Lembrou que havia sempre um de reserva para estas ocasiões na gaveta da cômoda. Mas não, este era já o reserva.

Embora tivesse certeza que seria em vão, arriscou verificar pela janela se a barraquinha da esquina ainda estava aberta. Claro que não! Por que ele nunca havia pensado em escrever uma crônica sobre uma situação ridícula e desesperadora como esta antes? Mas agora não dava.
Queria era fumar um cigarro.

Conseguiu levantar antes que o mocinho em preto-e-branco do filme da década de quarenta acendesse outro Lucky Strike na telinha à sua frente, só de sacanagem. Claro, este tipo de coisa sempre acontece, tipo você estar morrendo de sede e passar um comercial borbulhante de refrigerante no momento exato em que o bar ao lado da sua casa fechou as portas.

No caso de Ludwig, o bar mais próximo ficava a uns dois quarteirões. E ele foi até lá. E, evidentemente, estava fechado. Claro, Ludwig, caso contrário não haveria argumento suficiente para uma crônica de duas laudas e meia.

Voltou para casa e assistiu ao mocinho da década de quarenta acender outro Lucky. Pegou papel e caneta e decidiu anotar suas impressões. Por que logo ele, literato completamente desconhecido, mas ainda assim um sujeito esclarecido, vivido e experiente, teria se deixado contaminar a tal ponto pela indústria do desejo?

Cigarros, mulheres, bebidas e automóveis de luxo, tudo em nome do sucesso, do raro prazer. Seria uma crônica ou, quem sabe, um poema concreto? As primeiras linhas, entretanto, demonstravam que se tratava mesmo de uma incontrolável vontade de fumar.

O velho Ludwig, desesperado, tentou papel reciclado picado, leite em pó desnatado, uma blusa de malhe sem uso, farelo de pão integral, a tampa de uma caixa de picolé de isopor e farinha de tapioca de Aratuípe. Mas nada disso conseguia se manter aceso depois do primeiro trago. Correu os olhos sobre o esboço escrito sobre a mesa. O que faria Fernando Pessoal em seu lugar?

Fernando Pessoa! Sim, o Pessoa que sempre lhe salvava nas noites de insônia e angústia! Não teria sido num livro dele que, dia desses, Ludwig havia colocado um cigarro para marcar a página?

Correu, a lembrança da nicotina percorrendo as veias e o aviso de que fumar é prejudicial à saúde impresso nos maços de cigarro a atrapalhar a memória, para buscar na estante o livro de Fernando Pessoa que, tinha certeza, guardava um cigarro como marcador de página.

Já nem se preocupava com a semiótica nos velhos ditos populares, com os conselhos da sua velha e sábia mãe, o exemplo de um antigo ministro da Justiça, as chamadas do Fantástico para o crescente número de casos de câncer no pulmão entre escritores brasileiros desconhecidos ou mesmo para o fato de ignorar se Fernando Pessoa fumava ou não.

Achou o livro e, com as mãos trêmulas, encontrou a página marcada. E lá estava ele! Meio achatado, é verdade, mas no fundo e na essência um cigarro! Enquanto o colocava nos lábios, buscava nos bolsos da calça, da camisa, sobre a mesa, na cozinha e no banheiro, uma caixa de fósforos. Descobriu a última junto ao maço de cigarros reserva vazio.

Também vazia. Nem um único palito que se pudesse usar, mesmo na cesta de lixo ou no cinzeiro... Fechou lentamente o livro do poeta lusitano e deitou novamente na cama pensando no que faria Béu Machado numa situação dessas. Assim dormiu o velho Ludwig nesta noite terrível, entre a perspectiva de se tornar famoso qualquer dia desses e passar a dar mais ouvidos a presságios populares. Mas isto já é outra crônica...

23 Fevereiro 2012

Noturno provável

Ziguezagueou sem dificuldades entre as flores do parapeito da janela e pousou sobre uma delas. Bonito, pequenino, de um negro metálico quase verde. Era certamente um inseto bonito, concluiu ainda meio sonolento. Displicente, atirou um pedaço de pão sobre ele. Apenas trocou de flor. Do quarto, vinha o alerta implacável e compassado do relógio.

O café amargo. Não sabia onde estava o açúcar e a mulher ainda dormia, porque o nenê tinha chorado a noite inteira. Pão de ontem, se não dava tempo pra ir à padaria comprar. Jogou no inseto negro metálico quase verde o último pedaço duro de pão. Trocou novamente de flor.

Cheiro de pão quente lá embaixo, onde os carros se apressavam em anunciar o novo dia. Sabia, logo seria o ônibus, uma curva (espaço de tempo difícil de se guardar na memória) e outra e outras e esperar a parada. Se não houver engarrafamento (e sempre havia), talvez não chegue atrasado ao trabalho. Uma outra curva e quem sabe a vida siga um pouco mais adiante daquele ponto onde ele terá de saltar.

Quase vinte anos de trabalho no mesmo emprego, podia chegar um pouco atrasado de vez em quando. Mulher, quatro filhos, pouquíssimas aventuras. Café amargo e frio. Pão velho, sem gosto. Na marmita, sabia, tinha feijão, arroz com batata e ovo frito. A mulher fazia o que podia, mas o dinheiro não dava pra coisa melhor, principalmente quando era final de mês. Descobriu-se questionando se aquele inseto bonito comia melhor que ele.

Foi então que aconteceu.

Como se alguma mola tivesse de repente se soltado da engrenagem, todo o viver contado entre o ato de apagar a luz na noite passada e acordar agora entre as notas compassadas do relógio varou impreciso num tempo quase impossível. Contava como o bater das asas de um inseto negro metálico quase verde, entre lembranças de infância e as promessas de amanhã. E pela primeira vez o relógio inútil não interrompeu os sonhos na pressa de amanhecer para anunciar a hora certa.

Ele era silêncio, ainda, mas pela primeira vez o seu silêncio acordou a noite, acordou a companheira, acordou a cidade.

26 Julho 2011

Ao norte das palavras

Seria mais uma noite perdida e não haveria motivo para tantas recordações. Ele entraria em outro bar, improvisaria um recital (Vinícius, que sempre caía bem com o ambiente, ou talvez Pessoa, porque era inverno e, quem sabe, a depender da platéia, ele próprio) e, caso não fosse expulso pelo garçom, até consideraria vender alguns dos folhetos mimeografados, garantindo uma nova edição de seus poemas incompletos, uma ou duas cervejas na madrugada e, com sorte, o almoço do dia seguinte.

Seria assim. Mas seguia o norte das palavras e quase tudo era possível. Antonia era o seu nome, embora realmente jamais pudesse ter certeza. Estava sentada em uma mesa, sorrindo com alguns amigos, próxima à entrada do bar. Ofereceu-lhe um folheto e - descobrira mais tarde - já não estava nem um pouco preocupado coma nova edição, as cervejas ou mesmo o almoço do dia seguinte. Queria estar perto dele e qualquer outra coisa seria outra coisa qualquer. Assim visitou seus olhos negros, entre versos improvisados que jamais saberia repetir, e ela sorriu.

- Translúcido, é como o exercício das palavras.

É vão (em torno de nada),

como o tempo e a dor.

Transparente como o lamento das pedras.

Imóvel, intocável ao olhar e as pensamento.

Incompleto, é sincero em não ter fim.

É pleno como a certeza da morte,

a insondável soma do imperfeito,

como um vazio que faz eternidade da medida exata

e fiel do evanescente e ainda mais.

O amor! Como a folha e o vento,

a comunhão insensata do cheiro de frutas de mil cores.

Ainda que translúcido o suficiente para ser sempre.

Ainda que incompleto o bastante para ser nunca...

Ela sorriu, segurou com as duas mãos o seu pescoço e lhe deu um beijo na boca. O beijo que ele jamais esqueceria. Não disse nada e foi embora. Ou então foi ele que, buscando o norte das palavras, esteve em todas as outras mesas de bar do mundo, enquanto Antonia (era esse o seu nome?) escapava como a noite, entre um e outro gole amargo de cerveja.

Ela não dissera nada, sorrira e fora embora. Pouco depois era o mesmo bar, perto da mesma mesa - tinha certeza - onde ela já não estava. Não sabia ao certo como tudo se passara, mas lembrou-se de repente das pessoas que estavam sentadas com ela, seus amigos, provavelmente.

- Antonia? Não, não seu quem é... Vocês conhecem?

- Não... Não é aquela memina que faz teatro?

- Não conheço... Ela não anda na Escola de Comunicação?

Final de noite e quase adivinhava, no tato suave da saudade, o sabor sonoro dos seus lábios, enquanto garganta abaixo ia a soma de tudo aquilo que pesasse mais que o ar. Ao norte, bem ao norte das palavras, rodava a sua cabeça (e não era a cerveja), em sentido horário. Certamente faria um poema, mas depois. Antonia, seria o seu nome. Sabia-o, de alguma maneira. Mas por enquanto, ocidente de tudo o que fora e ainda seria, descobria apenas que as palavras não significariam mais que poesia entregue a elas.

- Com licença, você se importa se a gente sentar aqui? É que o bar tá cheio e não tem mais onde sentar...

Final de noite de sábado, o bar cheio e ele sozinho, dividindo uma mesa com gente que falava e ria e bebia sem parar. Alguém descobriu o maço de folhetos num canto.

- Ei, você escreve posias, cara?

- É, eu acho que escrevo...

- Pois eu adoro poesia! Acho que ela nos imortaliza, nos torna eternos de alguma maneira!

- Menina, eterno é uma palavra que nem todo poeta devia conhecer.

Ela sorriu, segurou com as duas mãos o seu pescoço e lhe deu um beijo na boca. O beijo que ele jamais esqueceria. Não disse nada e foi embora. O namorado dela, ao lado na mesa, não gostou nem um pouco daquilo. Entretanto, ainda eram feitas exceções à gula da noite feroz e - poupada como por encanto - ela cresceu em seu pranto, sem mais o compromisso das horas e sua pungência necessária. E assim foi feito. Era ela, agora, dona de tantos alentos, passageira desatenta de um tempo que lhe corria às veias, à revelia, quando apenas deveria deixar às palavras as possibilidades que escondia.

- Querida, diga alguma coisa, você tá tão calada esta noite...

- As palavras são o único mistério de que precisa o poeta.

22 Junho 2011

Os jornais da Cachoeira - 28 (final)

Pequeno Jornal
Semanário que se declarava independente e noticioso, começou a circular no dia 1 de janeiro de 1912, com redação e oficina na Rua Treze de Maio, esquina d´Ajuda. Seu fundador e diretor foi Epiphanio Conceição. O formato era de 26 cm por 33 cm de mancha gráfica, em cinco colunas distribuídas em quatro páginas. Incluía algumas poucas fotos em clichês e circulava quase sempre com um bom número de anúncios. A página três era sempre dedicada a eles, mas costumavam aparecer também na segunda página. Reunia informações de interesse local, com linguagem informativa, na medida do possível para a época, pequenas matérias e editoriais sobre a política e a administração local, mas também trazia artigos de interesse geral e curiosidades, editais, informes e notas sociais. A procedência deste material era tanto local quanto nacional e mesmo internacional, na medida em que reproduzia e comentava textos publicados em outros jornais brasileiros e estrangeiros. No período analisado para esta pesquisa, entre os anos de 1942 e 1946, bastante marcado pela Segunda Guerra Mundial, o jornal atravessava uma fase complicada, pois além de dedicar muito espaço à cobertura do conflito, quase todo ele de caráter extremamente ideológico e de exaltação ao patriotismo e heroísmo aliado (distribuído principalmente pelas agências de notícia norte-americanas), mantinha uma linha de apoio automático e incondicional ao governo autoritário e personalista de Getúlio Vargas. Não foi possível encontrar registro seguro sobre o ano em que deixou de circular, além do fato de ter permanecido ativo até pelo menos o final da Segunda Guerra Mundial, o que já representa um marco significativo para a imprensa regional cachoeirana.


Encerro aqui a publicação deste resumo, meramente ilustrativo, dos 28 periódicos cachoeiranos pesquisados durante o trabalho de campo que balizou minha tese de doutoramento, intitulada Ser baiano na medida do Recôncavo. Estes impressos circularam na região durante os séculos XIX e XX. Daqui pra frente, pretendo estampar algumas observações, conclusões e verificações - bem como algumas curiosidades dignas de nota - levantadas neste trabalho acadêmico. Esta nova série terá o título Enquanto isso, no século XIX...

Os jornais da Cachoeira - 27

A Cachoeira
Vários periódicos foram editados na cidade com este título, o primeiro deles em 24 de setembro de 1896, declarando-se órgão oficial do Partido Republicano Federal e que circulou até 1916. Outro foi um semanário noticioso e literário, que surgiu em 18 de abril de 1934 e saía sempre aos domingos até pelo menos o ano de 1942. Tinha como diretor geral Anarelino Pereira, com redação e oficinas na Rua Virgílio Damásio, 20. Sua mancha gráfica tinha as dimensões de 28 cm por 42 cm, com quatro páginas distribuídas entre cinco colunas com textos e imagens em clichês. Seu conteúdo se dividia em matérias diversas abordando assuntos principalmente nacionais e locais, mas também notas sociais, atos oficiais, decretos e portarias do governo, editais e muitos anúncios comerciais, estes concentrados nas páginas 2 e 3. No período utilizado para esta pesquisa, no ano de 1942, o jornal encontrava-se editorialmente comprometido com o Estado Novo, servindo de porta-voz para as suas lideranças nacionais e representantes locais. Por fim, também podem ser encontrados exemplares de um novo A Cachoeira circulando entre os anos de 1971 a 1989.

Os jornais da Cachoeira - 26



O Republicano
Periódico político, noticioso e comercial, defendia as ideias do Partido Republicano e sua epígrafe era Ordem e Progresso. O primeiro número circulou em 17 de abril de 1890, mas manteve-se em atividade somente até o ano seguinte. Media 24 cm por 35 cm, impresso em quatro colunas, sem fotos mas com algumas gravuras em clichês de anúncios comerciais. Seu conteúdo era formado principalmente por textos e artigos de orientação ideológica e partidária, de origem própria ou transcritos de outros jornais e quase sempre comentados, mas não deixava de incluir noticiário local, ainda que em notinhas bem curtas. Tinha também atos e nomeações, eventos e festejos cívicos e populares, óbitos e decretos diversos. Publicava, ainda, poesia, sobretudo odes de apelo cívico e nacionalista. Destaque para a grande quantidade de anúncios, que eram distribuídos entre as páginas três e quatro, mas muitas vezes chegavam a ocupar a dois. Ao lado de uma maioria de anúncios comerciais, haviam os famosos a pedidos, mas inclusive - em determinado período - propaganda eleitoral dos candidatos republicanos ao congresso estadual (que corresponderia à atual Assembleia Legislativa).

08 Junho 2011

tróia

a simetria
de um pôr-do-sol
perfeito
e quaisquer outros

os ritmos
de um dia
imaginando um último suspiro
humano possível

universal


rasga ao meio
todo o corpo do universo
com essas navalhas diversas
e ameaça
e diverte os sentidos
com outros segredos
enquanto passos na praia
e solidão
vão encontrando em medo
em distância
a promessa de novo horizonte
capaz de inaugurar
em torno de si mesmo
o que jamais esqueceu

letícia

uma declaração binacional de amor vagabundo
buenos aires, janeiro a julho de 1987


tão fácil
morrer
entre cada
breve espaço
no abrir
e fechar
dos olhos dela

um homem só
é dono de muitos
fantasmas
mas aquilo que ele é
é capaz de deixar
todo medo para trás

essa menina
de fogos famintos no olhar
e artifícios
pra quantos carinhos sejam
(ela que chega
e me assanha os cabelos
como queira)

essa menina
vulgar comum dos meus medos
e todo tempo
essa loucura mesma
(ela que acenda no peito
senhora dos meus segredos
qualquer amor que invente)


o seu amor sem rimas
? será que ele ainda ensina
coisas que o mundo esconde
debaixo do travesseiro
atrás daquela esquina
ou defronte dos olhos travessos
dessa menina?

ah, esse amor sem eiras
de clima de fronteira
? será que ainda atravessa
o peito em distâncias de mentira
será que revisita o coração
numa infância que jamais
jamais conhecera?

o seu amor menino
escorrega pela palma da mão
como um poema
o seu amor afaga
faz confusão e acalma
o meu amor sem destino

a noite talvez não valesse
um beijo roubado na esquina
mas certamente
fazia da insônia
mais do que se pudesse esperar

e por isso
assisti
o dia nascer

mas alguma estrela vadia
cansada de tanto lamento
terminou me acordando
que a vida ainda seguia
um pouco mais além

e eu consegui
dormir
outra vez

06 Junho 2011

Os jornais da Cachoeira - 25

O Tempo
Hebdomadário político liberal e noticioso, fundado em 14 de setembro de 1887, por José Ferreira Formiga, que também foi seu editor, circulou até o ano de 1895. Media 15 cm por 26 cm de mancha gráfica, com texto apenas, separado em quatro colunas e média de quatro páginas. Sua tipografia própria ficava na Rua da Ponte Nova, 48. Publicava artigos com comentários sobre temas nacionais e noticiário local, principalmente relacionados a assuntos de interesse da comunidade e seu cotidiano urbano, com várias notas que hoje pertenceriam à editoria de polícia. Mas também abria espaço para curiosidades e fatos pitorescos ocorridos em volta do mundo, além de editais, poemas e folhetins seriados, anúncios a pedidos, textos de propaganda comercial e clichês com anúncios diversos.

Os jornais da Cachoeira - 24



O Brazil
Semanário político, de instrução e recreio, fundado em 1886 por Veridiano de Amazone, que também foi seu redator. Era impresso em tipografia própria, localizada à Ladeira do Monte, número 16, em formato de 15 cm por 23 cm, com quatro páginas em três colunas de texto e eventuais gravuras em clichê. Costumava publicar textos autorais, como longos artigos em estilo afetado, como era costuma na época, seguindo uma linha positivista de louvação às liberdades liberais, à ordem nacional e ao progresso. Além do noticiário local, incluía informes literários e folhetins em forma de seriado, com poucos anúncios comerciais. Outro jornal havia circulado, com o mesmo nome, em 22 de março de 1872, como órgão do Partido Conservador. Mais um periódico voltaria a usar a mesma denominação em 30 de janeiro de 1893, desta vez por iniciativa de uma associação.

01 Junho 2011

Viajando - poemas em trânsito

Tradução

acima de todas as luzes
dos seus carros enfrentando
as luzes de todos os brilhos de
Corrientes à noite

acima de todos os vinhos
dos seus finos sabores
desfrutados entre mil cores
de seus quioscos esquisitos

e acima de todo o seu povo
de suas louras promessas
de esquinas vermelhas
e desenhos confusos

com todos os amores
acima de tudo
é assim, Argentina
como um sonho além de qualquer tradução

26 Maio 2011

Viajando - digressões no tempo e espaço


Poemas dedicados

1986

Josema

de ser longe
fez-se a cor sem cor dos seus olhos
de ser carinho
foi possível ter tãi certo
o calor dos seus braços
abraços sem tempo pra pensar
em outra distância
ou esses tantos sabores abstratos
pois
de ser assim tão perto
você foi se fazendo hóspede
desse amor concreto
e indeterminado

gel

uma noite
talvez
seja efêmera o bastante
pra fazer saudade
o jeito ainda tão ontem
de beijar sua boca
e inaugurar poemas de amor
no seu corpo dormindo ao meu lado

mas uma noite
talvez
seja tão infinita e sem cores
quanto a promessa das estrelas
de estar sempre perto
quando o amor
pintar
e o poema já não for tão breve

mirta michu

o outro ainda não tão ontem
de entre lábios e corpos
em frase tão natural
inaugura’inda sentida azuis
em travestidas saudades
terna idade de ser desigual
relação entre sempre
e talvez
estros
ainda tão hoje astro
de entre línguas e poros
em fase tão ritual
atravessa universos escuros
e investiga paixões
no sexo eterno de ter a lembrança
como equação entre estar
e o amor

mónica

tuas cores
ardem como
qualquer saudade
mas sabem inventar
outros tons
a cada novo olhar
ao horizonte
quando o amor
for tudo o que
estiver
entre o seu beijo
e um breve aceno
de adeus!

17 Maio 2011

Os jornais da Cachoeira - 23


A imprensa
Gazeta noticiosa, literária e poética, circulou de 1884 até pelo menos o ano seguinte. Seu proprietário e redator era Joaquim Alves Gomes, que a imprimia na Rua da Feira, 68. Em tamanho de 15 cm por 26 cm, circulava em média com quatro páginas, em duas colunas com texto e algumas imagens em clichê. Trazia matérias locais, notas com informes nacionais e mundiais, noticiário social, falecimentos, informes literários, poemas e folhetim seriado. Entre os anúncios, predominavam os do tipo a pedidos. Outro periódico com o mesmo nome já havia sido impresso em 3 de dezembro de 1870, ficando em atividade apenas até o ano seguinte, 1871. E novamente o título foi publicado com a denominação de jornal político, noticioso e beletrista, em 12 de março de 1933.

Os jornais da Cachoeira - 22

Echo do Povo
Periódico literário e noticioso de interesses locais, fundado em maio de 1881, com escritório e tipografia no Largo do Pitanga, 21. Tinha como gerente M. Falcão. Era impresso no formato de 17 cm por 24 cm, com quatro páginas em quatro colunas, sem fotos ou imagens, embora eventualmente trouxesse alguns clichês de anúncios comerciais. Reunia artigos e matérias com defesa de suas posições políticas e ideológicas, ao lado de noticiário local e nacional, bem como a reprodução e comentários sobre fatos ocorridos no estrangeiro. Também incluía notas de folhetins e variedades, crítica social, atos oficiais, resultado de loterias, poemas e anúncios destacados e do tipo classificados.

09 Maio 2011

Viajando - poemas em trânsito


poema da partida de Gel

verão de 86

dessa coisa que mete medo
e que a gente ainda guarda
cheia de laços de fita
como frio na barriga na memória
dessas
e de outras histórias
ondas londrinas
por-do-sol no mar de brigston
porto seguro tão seu de céus azuis
(como azul
é o tempo que leva uma onda pra virar lembrança
numa praia de itaparica)
desses e de outros frios
de cerveja quente e cabeça perdida longe
enquanto ocidente úmido do corpo amado
ardendo saudade inventada na ponta dos dedos e
tanto mar...
transatlântico tesão inaugurando
viagens em naus inevitáveis
(ah! tanto lugar comum
tanta espuma pra uma coisinha
assim de olhar miúdo
na janela do avião
- boa viagem!
que a metafísica inútil
de uma cerveja saideira em mar grande
ou no boema
faz o resto)
como de tão perto fica um seu beijo
cortando o tempo em pedaços e oferecendo um pouquinho
pra gente
quando o frio apertar

18 Abril 2011

Viajando - poemas em trânsito


Hora de acordar
Sampa, domingo, 9 de novembro

quando eu falo desse amor
ele é igual a esse chegar
cair de quatro
de cara nesse mundo
(inestimável referência de
estar vivo)
de ainda saber dizer
desse azul agora
que inaugura angústias
prazeres

(teus poros teus poros teus poros)

- ah, esse azul secreto
correndo eterno entre tantas esquinas...

- ah, esse azul canhoto
de imaginar cartas que jamais serão

- ah, esse azul marinho
claro acerto com as ondas
da praia de amaralina

essa menina concreta
que só desperta quando eu falo
desse amor
que só levanta da cama
quando o sol beija o dia

- bom dia!

13 Abril 2011

Os jornais da Cachoeira - 21

Diário da Cachoeira Folha diária independente, que circulou de 1º de setembro de 1880 até o ano seguinte. Impresso em tipografia própria, situada na Rua da Matriz, número 7, media 15 cm por 23 cm, com quatro páginas em três colunas, sem fotos ou gravuras. Seu redator era J. Joaquim Villas-boas. Trazia em geral noticiário local e variedades, além de obituários, editais e atos oficiais. Circulava quase sempre com boa quantidade de anúncios comerciais e classificados de muitos profissionais liberais, principalmente advogados, bem como os textos a pedidos.

Os jornais da Cachoeira - 20

O Santelmo Jornal literário e noticioso, fundado em fevereiro de 1880 por M. A. Nazareth. Tinha o formato pequeno, com duas colunas de texto, sem fotos ou ilustrações, circulando geralmente com quatro páginas. Trazia noticiário local e material transcrito de outros periódicos brasileiros, mas preferia dar ênfase aos fatos curiosos e acontecimentos pitorescos. Abria espaço ainda para a poesia e as colunas de variedades, bem como anúncios comerciais destacados, do tipo classificados ou os conhecidos como a pedidos. Também publicava alguns serviços, como horário dos barcos a vapor que ligavam a Cachoeira à capital e outras localidades do Recôncavo. Outro jornal com o mesmo nome circulou entre 25 de junho de 1891 a 1893. Reapareceu a 3 de maio de 1899, desta vez tendo como redator Henrique Alves dos Santos e defendendo os ideais republicanos, ainda em pequeno formato, com duas colunas de texto, mas novamente teve curta duração.

Os jornais da Cachoeira - 19

O Futuro Órgão literário, pilhérico e comercial, foi fundado em 10 de fevereiro de 1878. Era propriedade de uma associação de tipógrafos e dedicava-se a defender a sua classe e as artes de uma maneira geral. Seu administrador foi Manuel Falcão. Era impresso na gráfica d’O Americano, antes de passar a ter tipografia própria, em 1880, mesmo ano em que encerrou as atividades. Os primeiros números saíram em formato pequeno, com apenas duas colunas de texto, adotando a partir do número 19 um tamanho maior, com três colunas, mas também sem fotos ou ilustrações. As edições tinham quase sempre quatro páginas. Continha artigos, notícias da região e de toda a Bahia e transcrição do noticiário de jornais de vários estados brasileiros, além de poemas, anúncios, horário de saída e chegada do vapor e uma coluna dedicada às letras e às artes. Um destaque criativo era a coluna Porque será? que publicava pequenas notas em forma de perguntas dirigidas às autoridades e políticos da Cachoeira sobre os problemas então enfrentados pela comunidade, quase sempre em tom irônico e às vezes bastante mordaz.

31 Março 2011

Viajando - poemas em trânsito


Poema de partida


Porto Alegre, 3 jul'87



como uma constelação diversa

adversos presságios de nada

fazem um tempo

enquanto eu conto as gotas de chuva na janela

e me isento de detalhes outros


pra poder entender

ao menos ou outros retalhos

deste nada

ainda que quase sempre

volte ao ausente de antes


talvez um verso mais rico

talvez um lírico apelo ao amor

e ser simples

pra ser nunca menos que

sempre


talvez alguma harmonia

talvez não precisar tanto

contar as dores do peito nos dedos

e ranger os dentes de tanta

felicidade


e me ofereço - ingênuo - ao primeiro sorriso que dobra a esquina

e molho os olhos daquela menina

com um colírio da nossa saudade

e parto


mas como eu provavelmente

fui feito sem idade

abro a janela do quarto

e me arrisco a um dia de sol quase

perfeito

27 Novembro 2010

Viajando - poemas em trânsito

Medo de dormir

Sampa, um sábado, 8 de novembro da década de 80

qualquer querer
enroscado ao pescoço
seria cor a todos os palcos
(tantos) menos a dor
dessas luzes suas (olhos
olhos e sorrisos)
em meus olhos
o tempo todo
- tanto carinho
e ao mesmo jeito
aquela taquicardia
de sempre -
seu corpo
no ladrilho da sala
algum arder entre os dedos
e a promessa azul
de um beijo

assim amamos
sobre os ladrilhos da sala
apertando os segredos
do seu corpo
entre os dedos
(o copo nervoso
entre o medo
e a noite
que insisitia
eterna como aquela
promessa
de amor)

qualquer palavra
a certa espera
(de olhos fixos
sobre a janela)
seria inútil a todos os toques
(harpas suaves)
água no copo nos ladrilhos da sala
- a sua cara
sorrindo pra mim
dizendo talvez
talvez um tanto negro
cheio de estrelas e poesia
na janela
- boa noite

16 Novembro 2010

Viajando - poemas em trânsito

poema de solidão

Bs As, julio ‘87

havia quase um todo
em volta da mesa
um jogo que o tempo
um tanto quanto o outro
não percebe
algo que cerca ao menos
um sumo
no toque total do ensaio
em torno do sempre
que nos habitava

(eu permiti
um sorriso
a mim mesmo
e isso nunca foi
solidão...)


havia muito dos sonhos
dos transatlânticos estranhos
que atravessavam os pântanos
da infância - ainda
que tardia - que fazia do amor
mera questão de retórica
mas que, talvez, tenha na pele
o sentido exato da palavra
saudade

(eu fui
um momento
em mim mesmo
e isso nunca foi
só paixão)

02 Novembro 2010

Os jornais da Cachoeira - 18


O Guarany
Definia-se como órgão imparcial, noticioso e literário, fundado em 4 de abril de 1877 e que circulou até 1896. Tinha o formato de 18,5 cm por 27 cm, com três colunas somente de texto, em quatro páginas por edição. Reunia noticiário geral, pequenas notas informativas, avisos e atos oficiais, mas também poemas, charadas e um folhetim seriado. Publicava também serviços de utilidade pública, como o horário dos vapores da Companhia Bahiana de Navegação e anúncios comerciais destacados e do tipo classificados. Um outro jornal de mesmo nome voltou a circular em Cachoeira no final do século XX.

Os jornais da Cachoeira - 17


A Verdade


Semanário político e chistoso, adepto das ideias liberais, foi fundado em 25 de maio de 1876 e circulou até o ano de 1884. Seu administrador assinava J. F. V. Formiga. Era impresso em tipografia própria, localizada na Rua da Ponte Nova, em formato médio, com três colunas somente de textos, em geral com quatro paginas por edição. Publicava artigos e editoriais em defesa de suas opiniões, seção de notícias diversas, notas abordando temas locais mas também nacionais, transcrição de notícias de outros jornais brasileiros, incluindo a análise e repercussões de fatos internacionais, além de variedades, poemas, folhetim seriado, pequenos contos e ensaios. Aceitava anúncios do tipo classificados comerciais e de oferta de serviços.

23 Outubro 2010

Viajando - poemas em trânsito


Impressões de viagem

I

as luzes de uma cidade
- qualquer cidade
em movimento
sob o estranhamento da noite -
têm uma melancolia
quase sonora
principalmente
quando assistidas
da janela de um quarto de hotal

II
um copo vazio de uísque
talvez ajude a diminuir
a distância
das mãos que emprestariam
um certo carinho
- somente a troco
de ver o dia nascer -
mas a noite é a mesma
na janela

III
saudades do mar
ou ainda um certo frio
diante a certeza
de ir dormir sozinho
(nada como os seus braços
demolindo e criando novos limites
para o meu corpo!)
mas eu inauguro uma cerveja
e brindo outra vez
à janela

IV
volto a pensar no urbano
lá fora
- tantas armadilhas inúteis
sempre alertas em torno
de um nada sagrado -
e abro um sorriso
para todos os deuses
com os quais vou dividir minha cama
enquanto a cidade não espanta
os olhos com mais um dia
na janela lá fora

V
quantos versos...
quantos versos ainda
antes de reinventar um passado comum
que traga a um tempo só
o morno de acalentar um sorriso
distante
e a pungência de amar e
ser o próprio amor?
- quanto tempo
pra ver você novamente? -

24 Setembro 2010

Os jornais da Cachoeira - 16


Echo Popular
Periódico político liberal, noticioso e comercial, foi fundado em 27 de julho de 1874 e esteve em atividade até agosto de 1880. Seu redator foi o advogado José Joaquim Villas-Boas. Era impresso em tipografia própria, localizada à quina da Praça, sobrado número 6, conforme estampado abaixo do logotipo, em formato grande, com quatro colunas de texto, distribuído entre quatro páginas, em média, por edição. Seu conteúdo editorial incluía noticiário diverso e notas curtas com informações locais e nacionais, material transcrito de jornais do Brasil e do mundo, poemas e folhetim seriado, mas também resultado de loterias, horário de partida e chegada dos barcos a vapor e trens, decretos, atos oficiais, nomeações, notas de agradecimento, anúncios comerciais e declarações a pedidos.

23 Setembro 2010

Os jornais da Cachoeira - 15

Sentinella da Liberdade

Periódico semanal democrático, noticioso, literário e comercial, fundado a 3 de dezembro de 1870 por seu redator e proprietário Veridiano Tavares da Gama. Trazia como epígrafe a frase atribuída a Victor Hugo Detende ó despotas, si puderdes, o mundo que se precipita em um oceano de luz. Além disso, trazia na capa, logo abaixo do logotipo, o aviso: “As pessoas que souberem ler e forem verdadeiramente pobres, e amar as letras, dar-se-ha n’esta typ. um exemplar d’esta gaseta n’os dias de sua publicaçam”. Fazia oposição cerrada ao governo de Pedro II. Era impresso em tipografia própria, localizada na Praça da Regeneração, número 13, em formato médio, com três coluna de texto apenas, geralmente com quatro páginas. Publicava artigos e colunas de opinião com correspondência de leitores, que todavia sempre assinavam através de pseudônimos. Também transcrevia notícias de outros jornais, notas com informes locais, poemas, sonetos, charadas, folhetim e anúncios diversos. Seu último número saiu em julho de 1871

20 Setembro 2010

Viajando - poemas em trânsito


Os novos mais eternos

Bs As, dia de la independencia argentina

E assim corre a noite, com todas as possibilidades a um toque.
Fria, talvez, lá fora, mas certamente cheia de alternativas a um abraço, um carinho,
uma nova forma de reconhecer o amor dentro da gente.
Tudo o mais é ânima e há ainda a ameaça de um novo dia.
Eu tento, entretanto, uma forma nova de ter estrelas e luas cheias mais fáceis de acariciar
(quem sabe um olhar, forma imediata de velocidade conduzir paixão).
Em troca, a noite é suave.
Em troca, ela toca a nossa pele de maneira sensual.
Cria espaços especiais para os nossos corpos e torna nossos beijos mais sinceros.
A noite cria os amores novos mais eternos que o momento vulgar.
A noite está em qualquer lugar e é cheia, embora não seja exatamente a única forma de estar aqui
- a noite teria sido feita extamente para o amor -
e seríamos nós, agora, a não tentar alguma forma de fazer amor entre as esquinas dessas ruas frias:
não!
Buenos Aires parece agora o mesmo caminho para a praia há algum tempo,
quando Arembepe era tudo o que havia na vida

02 Setembro 2010

Instantâneo marinho

Sentou outra vez à máquina de escrever. Tinha aos pés descalços, como tapete preguiçoso, o cachorro companheiro. Abrira outra garrafa de vinho, desta vez tinto, chileno e seco, antes de colocar pra tocar novamente o disco do Piazzola. Talvez não pensasse em nada, por isso não conseguia escrever. Mas sabia que do outro lado da janela, apesar da noite sem lua, havia o mar que tanto amava. E assim era feliz.
Alguém lhe havia dito, um dia, que a vida é espiral e flui de acordo com a cor que os seus olhos possam emprestar à luz inevitável, independente de qualquer outra noção de tempo. Por isso, olhou em volta: um velho amor na gaveta, o colarinho sujo, branco na memória de tanto rebuscar armários antigos em busca daquele eterno impecável. E os mesmos, mesmos ternos afagos e solidão.
A adolescência cumprida à força de um trato mal feito com o tempo e o espelho. As palavras servidas em prato feito e igual infância perdida em mal-estar passageiro. Afinal, não era assim tão precoce a esclerose, a ponto de negar os primeiros pelos tão esperados na cara, apenas para ter uma desculpa descarada para ir outra vez ao banheiro e as espelho (naquele canto de ladrilhos há ainda enferrujada a lâmina inútil de barbear).
Mas foram precisos tantos outros achados para que ele voltasse ao ponto de partida, com as mãos abanando. Tonto, tonto e no entanto dono de tantos valetes, o bastante a qualquer segredo que inventasse para si próprio. Pois cresceu assim (denunciaria algum dia aquela lâmina indiscreta), já que foram muitos os beijos roubados - tantos quantos os negados - a desafiarem as suas faces secretas. Enquanto a dor, a dor absoluta e sem dono, seguia invadindo poros, sem permissão.
Ah, quantos versos seriam necessários para aplacar este impossível? A dor prosseguia única, senhora de infinitas noites em claro. Até que ele, agora poeta, resolvesse fazer-se dono do mundo e romper rimas em busca de uma nova poesia! E rasgar praças e esquinas e eleger idiossincrasias aos deuses que ele provavelmente inventou. Ou aos diabos, que o escolheram e carregaram....
Mas apenas isso já não seria o bastante e ele saiu a oferecer-se ao que não era, mera fronteira entre a solidão e todo o pensamento tombado pelo patrimônio intelectual da nação. Ao mesmo tempo em que aquilo que não era, fazia dele (quem diria!) poeta... Talvez pensasse nisso quando dormiu, pés descalços e a companhia do cão preguiçoso. A garrafa de vinho tinto e seca, o vinil do Piazzola ainda em voltas e voltas em torno de uma noite que já escapava, ocidente de si mesma.
A esta altura, dormiria o poeta, pronto a outros sonhos, a sonhos que sequer tentara imaginar, enquanto o poema que não foi escrito desafiava as teclas da máquina de escrever.
Estaria na força imensa dos seus próprios mistérios ou no ritmo louco do seu jeito sem jeito e ao seu peito óbvio bastaria. Seria quase tudo que se imagine juntos e nunca teria o seu segredo imenso de parecer pequeno quando sem fim se saberia. E ainda faria dos seus sonhos um vulgar comum qualquer, já que em nenhum lugar estaria, quando afinal não fosse aqui, agora, ou qualquer outra armadilha fugidia.
Era quase certo que ele tentaria escrever o poema, mas uma nova manhã já invadia a sala, como a brisa do mar, através da janela aberta. E as palavras acabaram reverso de si mesmas, espiral até que acordasse o poeta.

27 Agosto 2010

Os jornais da Cachoeira - 14


A Ordem

Foi o jornal de maior circulação do interior da Bahia em sua época, merecendo também o título de um dos mais longevos, vez que circulou por 65 anos, de 2 de junho de 1870 até o ano de 1935. Seu fundador foi José Ramiro das Chagas, que depois passou as funções de diretor e redator-chefe para Durval Chagas, que assumiu no ano de 1900 e esteve à frente do jornal até sua morte, em 1930. Após um pequeno período sem circular, ressurgiu em 1933 com a direção entregue a Hermes de Assis Costa e a chefia da redação ao bacharel Artur Marques. Definia-se como uma folha popular e imparcial, embora por alguns anos, de 1885 até 1888, tenha acrescentado ao logotipo a expressão Órgão do Partido Conservador. Era publicado às quartas-feiras e sábados, em tipografia própria situada no número 13 da Rua Formosa e, depois, nas ruas Entre-Pontes (casa 19) e J.J. Seabra (24). Seu formato inicial era de 28 cm de largura por 43 cm de altura, primeiro com quatro e depois cinco colunas, em geral com quatro páginas, sem fotos, mas quase sempre com algum clichê ou gravura. Publicava bastante material informativo, principalmente em forma de pequenas matérias e notas, com novidades locais, estaduais, nacionais e internacionais, com redação própria, mas também transcrevendo e comentando matérias e telegramas de agências de notícias e outros jornais baianos, brasileiros e estrangeiros. Além do noticiário, publicava anedotas, trovas, poemas, contos, folhetins, editais, discursos proferidos por autoridades e anúncios tipo classificados. A partir de janeiro de 1890, aumentou seu formato, quando tornou-se o periódico de maior tiragem fora da capital baiana. Nesta época o tamanho de sua mancha gráfica passou para 33 cm por 50 cm, com seis colunas em quatro paginas. Começou a publicar fotos e tinha inúmeros anúncios e editais, concentrados sobretudo na terceira página.

24 Agosto 2010

Os jornais da Cachoeira - 13


A Grinalda

Periódico de caráter literário, recreativo e religioso, dedicado ao belo sexo, conforme anunciava, seu primeiro número começou a circular no dia 17 de março de 1869, mas durou pouco mais de um ano. Seu fundador e diretor-gerente era Veridiano Tavares da Gama. O formato era de 15 cm por 23 cm, impresso de início semanalmente na tipografia do jornal O Crítico, mudando-se depois para uma tipografia própria, instalada primeiro na Rua dos Currais Velhos e depois na Praça da Regeneração. Contudo, logo passou a enfrentar dificuldades e circulou de maneira irregular até novembro de 1870. Tinha duas colunas em quatro páginas, sem fotos ou gravuras, apenas textos. Reunia contos, pequenos romances seriados, poemas, trovas, acrósticos, epigramas, sonetos, charadas e artigos leves ou de cunho religioso, católico tradicional. Além do material escrito pelo seu redator e colaboradores, recebia contribuições das próprias leitoras. A partir do número 22, que circulou em 30 de março de 1870, mudou de formato, passando a sair com 18 cm X 26 cm, em três colunas. Durante esta segunda fase, praticamente abandonou a vocação literária e religiosa, dedicando-se com fervor à causa republicana, defendendo os valores liberais e combatendo o absolutismo da corte de Pedro II. Passa, então, a publicar também pequenas notícias do dia a dia da cidade, festejos religiosos e populares, atos e decretos publicados no diário oficial.

20 Agosto 2010

Viajando - poemas em trânsito

por la calle

Bs As, Corrientes, nov´17

como a solidão de cada pedra
no frio de uma noite
que se repete
indiferente a qualquer julgamento
humano

... será
sempre assim
enquanto houver qualquer poesia
separando o entardecer
da promessa de um novo dia



mar del plata

no Mordomia, Ladeira da Barra, em 24 de setembro de 1991

um olhar de prata
sobre a nata do seu mar sem jeito
e pronto!

está feito o longo, louco desejo
de estar de volta
aos seus seios cor de nada!

nostalgia
seria apenas uma rima
não fosse longe

distante imperfeito da magia
que me deixou sem norte
nesse mar incerto

e decerto
bem longe
da prata qu´eu queria!

17 Agosto 2010

Os jornais da Cachoeira - 12


A Formiga

Periódico liberal político e chistoso, de propriedade de J. F. Vieira, foi impresso em tipografia própria de 1 de fevereiro de 1869 até o ano de 1872. Tinha o formato pequeno, com duas colunas de texto apenas, sem fotos ou ilustrações, saindo geralmente com quatro páginas. Publicava artigos de opinião, matérias diversas e notas com informação política local, de interesse geral e da comunidade, mas principalmente do comércio de Cachoeira e São Félix, mas sem poupar de críticas às autoridades e aos políticos da região, que frequentemente eram alvo de poemas e trovas em tom satírico. Aceitava anúncios comerciais e avisos. Era um dos poucos, na época, que publicava uma errata, corrigindo o uso incorreto da ortografia ou da gramática em edições anteriores.


Os jornais da Cachoeira - 11


O Americano

Editado pelo Partido Liberal e de propriedade de uma associação, circulou de 30 de janeiro de 1867 até o ano de 1895. Saía inicialmente uma ou duas vezes por semana, mas a partir de 1883 passou a três vezes por semana e, finalmente, em 1886 era distribuído 12 vezes por mês em dias indeterminados. Tinha tipografia própria, que funcionou na casa número 5 da Rua de Baixo e, entre os anos de 1872 e 1886, na Rua da Ponte Nova, número 16. O redator-gerente era o advogado José Joaquim Villasboas. Seu formato era de 24 cm por 40 cm de mancha gráfica, geralmente com quatro páginas, em quatro colunas de textos e imagens em clichês apenas em alguns anúncios comerciais destacados. Seu conteúdo era distribuído entre matérias, editoriais e artigos defendendo o pensamento e as posições políticas dos liberais, uma coluna com notícias diversas, quase sempre curtas, do próprio município e região, grande parte delas de interesse de comerciantes e políticos. Publicava também poemas, discursos e um romance em forma de folhetim seriado, além dos anúncios. Um primeiro jornal havia circulado em Cachoeira com este mesmo nome em 28 de janeiro de 1840, sob a epígrafe de defensor da liberdade constitucional, mas não teve vida longa.

16 Agosto 2010

Comunicação em tempos de globaritarismo

Este é o título do capítulo publicado no livro Educação, Comunicação, Globalitarismo, organizado pelo jornalista Fernando Conceição (Edufba, 2008) a partir das discussões em torno do Colóquio Milton Santos, promovido pelo grupo de pesquisa Permanecer Milton Santos, na Faculdade de Comunicação da Ufba.

No texto, eu parto do princípio de que os governos investem bastante no desenvolvimento de tecnologia, sobretudo aquelas ligadas à informação, cada vez mais valorizada enquanto moeda de uma contemporaneidade globalizante. E todo um discurso oficial é produzido para justificar tais escolhas, da premência de uma segurança nacional e uma lógica industrial desenvolvimentista. Um discurso que atravessa toda a sociedade, dos meios acadêmicos e científicos que o legitimam aos políticos que o utilizam, da mídia que o endeusa ao senso comum que o engole sem mastigar.

O que é até justificável, se levarmos em consideração a lógica de competitividade impregnada nas almas das nações desde o nascimento de uma modernidade iluminista que as gerou e pariu.
Mas, no fundo, a questão não é tecnológica. No momento atual, parece ter mais a ver com quem produz a tecnologia para quem comprar. Deste modo, os países centrais e as empresas multi e transnacionais que neles mantêm suas matrizes seguem investindo na produção de tecnologias, de soluções tecnológicas ferozmente protegidas por um sistema de copyright que não deixa escapar sequer as misteriosas configurações do genoma humano, cabendo às nações periféricas do terceiro mundo a tarefa simples de comprar e pagar (caro) por cada patente de comprimido para dor de cabeça, cada fórmula secreta de refrigerante ou pelo código fonte de um processador de texto mais besta ou do videogame mais infantil.

Mas a questão não é o tipo ou a qualidade da tecnologia comunicacional de que lançamos mão para desarrolhar os processos de mundialização da produção social, do cambio de informação, de capitais e de culturas, mas sim decidir quem produz a tecnologia para quem usufruir. O que mais importa quando tratamos da questão deve ser o uso a ser dado ao aparato de comunicação midiática da contemporaneidade. Por mais difícil e complicada que pareça à primeira vista, tal agenda tem um percurso suficientemente conhecido: passa pela inclusão digital (não como o ajuntamento de palavras vazias ao qual os discursos políticos costumam se referir, mas a uma inclusão real, que inclua também acesso à energia elétrica, saneamento básico, educação e noções mínimas de empregabilidade e empreendedorismo, sem o que nenhuma das demais ações se sustentariam por si mesmas.

O roteiro desta utopia passa ainda pela democratização do trânsito da informação, tornando seu fluxo interativo de fato. Passa pela garantia de sua utilização por tantos quantos sejam os diferentes e os desiguais que dela queiram usufruir. Pois não se trata – ou deveria tratar – de agradar ao consumidor ou tornar mais satisfeito um telespectador que o seja, mas de construir um interlocutor, de incluir um usuário e de possibilitar que ele se torne, igualmente, um produtor de informação.

14 Agosto 2010

Viajando - poemas em trânsito

Callao y Corrientes

a Popi, Buenos Aires, julho de 1987

imagino seus olhinhos
sem medo
cruzando esquinas
entre óculos escuros
como se todo caminho
fosse o único
e fosse fácil andar sozinho
por estas ruas porteñas
sem ao menos
a promessa de um beijo
- um beijo seu...
talvez




La Paz, bar y billares

Bs As, Corrientes con Motevideo, julio´87

ritmo lento
da cerveja
adentra o quente
da alma
nos murmúrios
das mesas
enquanto ainda pouco
eram os beijos
para as promessas
que se amarravam
entre as vinhas
as veias
cheias de cerveja
- sua mão
embaixo da mesa
nas minhas pernas
eram elas
e nada mais
haveria -
cerveja cerveja
buenos aires sorria
e para mim
nada mais seria
igual
e o que nunca fora
fazia de sua ausência
a própria força
a música que sequer
esperava
o beijo que adivinhava
para que a noite
seguisse um sorriso só
diverso o bastante
para ser feliz
e ainda
apressado
apressado ainda
para não ser
mais nada

12 Agosto 2010

Os jornais da Cachoeira - 10

O Progresso
Órgão do Partido Conservador, declarava-se um periódico noticioso, literário e comercial. Foi fundado em 2 de janeiro de 1860. Era editado inicialmente em tipografia instalada à Rua das Flores, número 37, mudando-se depois para a Rua da Matriz. Não trouxe indicação do fundador, mas seu redator era Augusto Ferreira Mota. O formato era de 18 cm por 28 cm, inicialmente em três colunas e passando depois para quatro. Circulava, em geral, com quatro páginas. Trazia artigos, pequenas notas e textos sobre a conjuntura política e social da segunda metade do século XIX, dominado pela expectativa geral de estabelecimento de um período de progresso e desenvolvimento, iluminado pelo positivismo que dominava o pensamento da elite intelectual do ocidente. Mas também abria espaço para o noticiário local, de cidades vizinhas do Recôncavo da Bahia e mesmo de outras capitais do Brasil, principalmente Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Interessante notar que o jornal publicava até mesmo algumas notinhas com informações oriundas de Alagoas e do Ceará. Manteve por muito tempo uma coluna intitulada Notícias da Europa. Também publicava o resultado de loterias e os dias e horários de chegada e partida dos navios da Companhia Bahiana de Navegação, bem como editais, declarações e anúncios, que para os assinantes eram gratuitos até o limite de 10 linhas, a maior parte deles concentrada na página 4. Seu último número circulou em 10 de maio de 1879.

06 Agosto 2010

Os jornais da Cachoeira - 9

Jornal da Cachoeira

Órgão noticioso e literário, bi-semanal, começou a circular em 5 de março de 1855, a princípio com o nome O Jornal, ficando em atividade até agosto de 1861. Seu proprietário era José Bruno da Silva Santos, que o imprimia em tipografia instalada à Rua da Ponte Nova, em formato com 16 cm por 26 cm, em três colunas sem fotos ou ilustração, com quatro páginas. Publicava principalmente noticiário local e de outras localidades do Recôncavo, textos transcritos de outros jornais, correspondências e artigos escritos por colaboradores nem sempre devidamente identificados, assim como pequenos anúncios do tipo classificados e os denominados a pedidos.

Viajando - poemas em trânsito


Ilha Porchat

3/11/1986

enquanto
não for possível
medir em ilhas
a emoção de cada onda
nas pedras
a gente sai inventando
paixões
entre cada sorriso
como uma
espuma
que afinal é resposta
à insistência das ondas
abrindo horizontes
no tempo
em direção ao futuro

05 Agosto 2010

Viajando - poemas em trânsito

Ponte aérea (medo de avião)

novembro de 1986

EU até acho
que namorava a lembrança
de algum sorriso seu
pela janela do avião

A verdade é que o horizonte
- o sol cortando nuvens
e refletindo possibilidades
na sua asa metálica -

apontava certa distância
ainda não muito experimentada!
ERA como não ter tempo

enquanto - como nuvens -
as imagens prováveis
e possíveis seguiam inventando destinos

02 Agosto 2010

Viajando - poemas em trânsito

da série digressões de tempo e espaço:


outra vez são paulo

Sampa, 4/11/1986

talvez se eu buscasse
no adjetivo morno
dos seus braços sempre
dispostos
ao meu corpo
fosse possível amar
pedra sobre pedra
dessa angústia necessária
a lhe respirar
com felicidade

mas você não é apenas
grande
não é apenas adjetivo (você
é um pouco mais que avenidas)
abrindo esquinas em meu
umbigo
inventando noites
indecifráveis
ao medo de sempre

talvez
e ainda nunca seremos
a mesma coisa
mas certamente
haverá versos e esquinas
a serem decifrados
haverá
sorrisos e novas cores
para inaugurar
enquanto somente dorme
entre nós
esse enorme olhar
cheio de promessas

28 Julho 2010

O lugar do comunitário no jornalismo regional

Muitas das mais caras questões para os estudos contemporâneos em comunicação envolvem o entendimento sobre as relações entre o discurso jornalístico em suas especificidades e sua aplicação em um contexto social específico, o regional. Para tanto, é necessário avaliar o que efetivamente muda e como ocorre esta mudança quando se aplicam os princípios que norteiam a prática e a narrativa jornalística em um ambiente cuja dimensão mais evidente é a valorização do local, do critério da proximidade e das relações comunitárias, até mesmo em detrimento de outros aspectos de noticiabilidade.
Este artigo foi publicado na segunda edição do Colóquio Milton Santos, realizado nas dependências da Facom (Ufba), em 2008. Confira o texto completo aqui:

Os jornais da Cachoeira - 8

O Vinte e Cinco de Junho
Definindo-se como um jornal político, literário e comercial, trazia como epígrafe a frase atribuída a Victor de Mercy, A liberdade de imprensa é a respiração do corpo social. Começou a circular no dia 6 de junho de 1853 e permaneceu em atividade até o ano de 1855. Circulava às quintas e domingos, com quatro páginas em formato de 23 cm por 33 cm de mancha gráfica, com somente texto, separado em três colunas. Era impresso na Tipografia Liberal, na Praça da Alegria, número 5. Publicava noticiário local, artigos e editoriais de inspiração liberal e antimonarquista, bem como pequenas notas transcritas de jornais da capital, novidades do Brasil e do mundo, principalmente Europa. Tinha, ainda, editais, decretos e mesmo estatutos completos de instituições e entidades ligadas às correntes políticas liberais que defendia. Como era costume na época, incluía na primeira página um obra literária do tipo folhetim publicada em capítulos. Defendia fervorosamente e com linguagem apaixonada a causa republicana e nacionalista, como o próprio título já anunciava.

27 Julho 2010

algo assim (outra letra pr’um rock quase pronto)

algo arde entre as letras
e o simples desejo de ser
mais um poema sem rima
outro tratado de economia aplicada
um dispositivo intra-uterino eficiente
ou a maneira sem dor
de enfrentar uma fila da previdência

algo assim
fez do destino
ganha-pão de cigano
e roteiro de novela da tevê
uma nova maneira de jogar tarô
sem comprometer a balança de pagamentos
e ainda quitar a dívida externa

mas não importa!
algo arde entre eu e você
porque fomos feitos
pr’uma letra de balada vagabunda
o resto é o resto, meu bem
(em dó maior, fazfavor)


mas algo ainda resta, entre a letra. por isso, escreva uma carta dizendo que me ama e talvez eu não cobre direito autoral quando o nosso romance virar trama de novela das oito. até lá, meu bem, quem sabe o partido comunista resolva o seu problema. porque eu, menina, acabei descobrindo que o que falta é uma rima capaz de dizer que o amor não é tão itapuã quanto deveria ser amaralina!