Texto publicado no folheto Brainstorm, em 1987.Enfiou a chave. Um suspiro e outro, mais demorado. Sempre deixava cair os ombros, resignado, quando percebia que este era um ritual repetido há muito tempo e que, talvez, lhe incomodasse. Talvez, mas sempre estacionava o carro na garagem, indignava-se com os já familiares palavrões nas paredes do elevador, procurava as chaves no bolso direito do paletó, embora elas sempre estivessem no esquerdo, e suspirava duas vezes antes de entrar.
- Querido, foi bom você ter chegado. Temos um problema gravíssimo!!!
Era Perpétua, até a morte... Mexia nos botões do aparelho de tevê.
- Olhe!
- Sim, e aí?
- Como “e aí” ??? O que é que você tá vendo?
- Nada.
- Poisé, nada, nada! Esse é o problema, não se vê nada! Nossa televisão pifou, quebrou!!!
Arrastou os olhos do rosto indignado de Perpétua até a tela negra e silenciosa. Meteu a mão no bolso, tirou a carteira de cigarros e os fósforos. Acendeu um cigarro, tragou demoradamente e ficou observando a tevê, em silêncio, jogando fumaça em cima dela. A imagem de Perpétua entrou em foco, cabelos longos soltos, camisola azul transparente, pouco acima dos joelhos redondos que ele tanto admirava. Ainda em cena, ela deslizou pelo segundo plano e o abraçou por trás.
- Morzão, cê não vem?...
Do canto esquerdo do vídeo, Tostão cruzava uma bola redondíssima para Pelé cabecear. Mas o goleiro italiano, atento, jogava a pelota pra escanteio. Porra! isso devia ser proibido, pensava ele. Como é que se marca a decisão do campeonato do mundo justamente no dia do seu casamento?...
- Comequié, cê não vai fazer nada?
- O que é que você quer que eu faça?
- Manda consertar, uai!?!
- Tacerto, amanhã eu telefono pro técnico e...
- Amanhã? e minha novela?? e o capítulo de hoje???
Não seria de propósito, mas aquele foi o melhor sorriso mal disfarçado que ele já foi capaz de oferecer a alguém.
- Paciência, né, Perpétua...
- Paciência, paciência, paciência... né Perpétua??? É só que cê sabe falar! Você é mesmo um babaca, um imprestável, um idiota, cretino e inútil, é isso que você é!!!
E bateu a porta da cozinha, chutando cobras e lagartos. Apenas um pequeno intervalo até o próximo round, sabia. Portanto, não seria inteligente esperar nada muito especial para o jantar, Melhor, era bom não esperar nada. Tratou de preparar uma generosa dose de uísque nacional.
- A velha tá braba hoje...
A filhinha, com os peitinhos querendo rasgar a juventude inconcebivelmente decotada.
- Merda, não tô encontrando...
A doce Perpétua, hoje já nem tão recatada. Do outro lado da sala, no sofá, a filhinha namorava. Enterrado na poltrona, com ar de pai, ele equilibrava o copo de uísque, duas pedras de gelo e o cigarro. Cinzas no carpete e, não havia como confirmar, pois a tevê estava quebrada, provavelmente as forças de ataque iraquianas dizimavam mais uma aldeia na fronteira com o Irã, causando a morte de milhares de inocentes, recrudescendo a situação de uma guerra que ameaçava não terminar nunca. E isso era tudo o que ele podia deixar como herança.
Espiou o relógio na parede. Nove e quarenta. às dez teria que ir embora e ainda não havia surgido oportunidade para ao menos um beijinho em Perpétua, quanto mais... E ele tinha direito a alguma coisa, pelo menos. Quase uma hora de viagem, dois ônibus, papo furado com os coroas, três anos de namoro certo, no sofá. E boas intenções, ora. Mas não havia folga. Um olho na televisão e outro neles. Então percebeu que a tomada do aparelho ficava atrás do sofá onde estava sentado e, num movimento ágil e despercebido, puxou o fio bem no meio de uma importante seqüência da novela.
Deus nos acuda geral! Mexiam nos botões, antena, válvulas, mas a caixinha mágica permanecia muda. Era a hora de agir. Com ar de entendido, perscrutou o aparelho e logo diagnosticou um problema, coisa fácil de resolver, mas precisaria de uma ou duas chaves de fenda, talvez uma chave inglesa, arame, parafusos, esparadrapo, alicate, tesoura, pregos, maçarico... Os velhos correram a buscar o material. Perpétua também, mas não conseguiu passar do corredor. Foi agarrada pela cintura e não resistiu ao ser levada ao canto mais escurso da sala.
- Acheeeeeeei!!!
Perpétua invadiu a sala com um ar de vitória. Tinha um brilho insano nos olhos esbugalhados e agitava estabanadamente um par de binóculos. Ninguém entendia nada. Com um gesto de desdém, pendurou-se na janela e apontou as lunetas para o prédio vizinho.
- O que é que está acontecendo?
- O Ricardo encontrou a Sílvia nos braços do Oscar. Estão discutindo. Ih, parece que vai dar briga!
Realmente, enquanto tudo isso acontecia, os garotos preocupavam-se em aproveitar, folgadamente, das alternativas que pode oferecer um decote generoso. Isso em pleno sofá. Mas dentro da sua casa, pensou, eles primeiro teriam que passar por cima da sua poltrona, antes de deitarem-se sobre o seu cadáver. Cerrou os punhos e esmurrou com toda a força a mesinha-de-centro, fazendo saltar do lugar o quadro colorido de Che Guevara.
- Pouca vergonha!
- Virgem santa, a coisa tá ficando preta!
Perpétua gritava eufórica da janela. O rapaz se levantou, tinha a sua dignidade. Mas raiva de pai é raiva de pai...
- Seu moleque pernicioso!
- Velho retrógrado! reaça careta! cetáceo senil!
- Pernilongo imberbe! subversivo! punk!
- Malufista!
Isto o fez perder a cabeça. Possesso, agarrou o garoto pela camisa e o empurrou com violência contra a parede. Ele reagiu e logo trocavam tapas e bofetões pela sala.
- Cruz credo! Foram às vias de fato!
O garoto, malhadão, quase dominava o velho preconceituoso quando este conseguiu se desvencilhar dos seus braços tatuados e sacar de um revólver. Perpétua, à beira de um colapso nervoso.
- Céus, enlouqueceu! Está apontando uma arma!
Dois tiros explodiram, secos e certeiros. Plim! Plim! O corpo do jovem surfista rolou pelo chão, manchando de sangue o carpete que fora limpo naquela mesma tarde.
- Oooooooooohhhhhhh... ele está morto. E agora? E agora?
O inescrupuloso assassino voltou-se então para a donzela assustada, no canto do sofá. Perpétua apenas acompanhava aquela cena sanguinária e vil.
- Oh, o Ricardo partiu pra cima da Sílvia, puxou-a pelo braço, está rasgando toda a sua roupa...
Torpe de ódio, o ser pestilento a agarrou pelo braço. Ela se debatia, tentando escapar, mas ele a esbofeteou, fazendo em pedaços as suas vestes. Nada o detinha em suas inconfessáveis intenções. Tirou-lhe primeiro a blusa, fazendo indefesos os pequenos seios. Arrancou-lhe ainda a saia, deixando-a apenas de calcinha...
- Ah, mas ela conseguiu escapar e correu para a porta. Oh, não! O maldito a alcançou, está com as duas mãos em seu pequeno pescoço. Está apertando, apertando... Ela está ficando vermelha, cinza, verde, azul... Ela está preta, pretinha da Silva, a pobre Sílvia...
Perpétua, perplexa, via os olhinhos da pobre moça úmidos de súplica, esperando a piedade do seu algoz. Em vão. Com expressão hedionda, ele prosseguia em seu intento.
- Maldito! alguém precisa fazer alguma coisa!
Perpétua estava em prantos, mas seu sofrimento ainda não terminara. Afinal, que novas maldades Ricardo seria capaz de engendrar? Quem seria a próxima vítima do seu ódio indomável? Estas e outras dúvidas, no entanto, somente seriam respondidas nos próximos capítulos.
Resignada, Perpétua apoiou os cotovelos sobre a janela e voltou os olhos para o rosto transfigurado daquele homem, aquele que um dia ela havia escolhido para ser o seu marido, companheiro das horas boas e más, até que a norte os separe... Não foi capaz de conter um longo e sincero suspiro. Ele a olhava fixamente.
- Muito bem, minha querida Perpétua, agora é a sua vez...
- Está bem, você venceu. Não vamos prolongar isso por muito tempo. Responda-me apenas uma coisa, Ricardo. Como é que você quer o filé, ao ponto ou mal passado?